Intolerância: um mal desnecessário

“É possível compreender que o mal pode ser tão impecavelmente racional quanto a bondade”
Zygmunt Bauman, Bauman sobre Bauman

Em todas as épocas, a intolerância é um grande mal guiado pela irresponsabilidade moral. Nos idos da Revolução Francesa, por exemplo, Maria Antonieta, a rainha, foi mandada para a guilhotina sob a falsa acusação de ter comprado com o dinheiro do povo um magnifico colar de diamantes que, segundo o seu biográfico, Stefan Zweig, ela jamais sequer viu. De nada adiantaram os argumentos em sua defesa “tal o ódio ilimitado de seus adversários”, no dizer de Zweig. Mas o fato é que o colar, de tão caro, só podia ser comprado por uma Coroa; e como não houve candidatos, suas partes foram vendidas em separado. O erro do julgamento só veio a ser corrigido muito mais tarde, quando só restava a absolvição pela história.

No Brasil de hoje, a irracionalidade das paixões políticas não chega a condenar ninguém à guilhotina, mas vem se manifestando em sucessivas ocasiões: no velório da ex-primeira-dama, Marisa Letícia, vítima de um aneurisma cerebral, quando a responsabilidade pela sua morte foi imputada à imprensa; nos tiros disparados contra a sede da Rede Gazeta, no Espírito Santo, durante a rebelião dos policiais militares no Estado que deixou como rastro mais de 130 mortos; e, recentemente, na censura judicial a dois grandes jornais, impedindo-os de publicar notícias sobre a chantagem praticada por um hacker contra a primeira-dama, Marcela Temer, felizmente revogada na mesma semana.

Em todos os casos, um mesmo motivo: a falta de uma cultura do debate. Retrospectivamente, é fácil entender o que acontece. Historicamente, foi sempre mais fácil argumentar que a culpa é da imprensa e ponto final. O que é incompreensível é que essa prática continue em vigor em plena democracia, envolvendo 322 pedidos de censura prévia só nos últimos cinco anos. Os dados são da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e limitam-se a retirada de conteúdo da Internet, em especial em períodos eleitorais.

Não se trata de dizer que a imprensa está sempre certa, mas daí responsabilizá-la pelos males do País e pelas adversidades de pessoas públicas, vai uma longa e imensurável distância. A começar pelo fato de que quando se passa a ser personalidade pública, se perde, sob muitos aspectos, o direito à privacidade que possui um cidadão comum. Onde começam e terminam as fronteiras entre o público e o privado: eis uma questão cada vez mais candente.

Em paralelo, qualquer ato de censura só faz chamar atenção sobre os fatos, uma vez que a democracia não admite esta prática. Igualmente, acontece com as ameaças à integridade dos jornais e jornalistas. Existem caminhos civilizados, isto é, não violentos, para discutir a imprensa, suas posturas, seus métodos, suas tendências e vocações. Essa é a força da razão moderna. A cultura do debate e da convivência entre visões de mundo diversas, elimina a possibilidade de ser um joguete de opiniões, geralmente preconceituosas, e da irracionalidade. Pois iguala a todos pelo direito.

Isto não elimina as questões ideológicas e de poder, mas torna o ambiente social mais transparente e, sem dúvida, menos radicalizado. Pois, uma sociedade aberta é uma sociedade tolerante. E uma sociedade tolerante não pode ser uma sociedade pré-social. Jornais e jornalistas têm o direito de tomar posições, desde que se atenham aos fatos, pois não escrevem ficção, mas sim notícias e reportagens, comentários e crônicas. Tudo a partir dos fatos que são teimosos e falam mais altos que as crenças e meras opiniões.

Uma imprensa livre, é sinônimo de povo bem informado. Essa tem sido a caraterística do ambiente brasileiro desde a promulgação da Constituição de 1988, que elevou a liberdade de expressão e de imprensa à categoria de cláusula pétrea. Em um ambiente que funciona assim, tudo é publicável, cabendo ao jornalista demarcar limites éticos. E a Justiça dar a palavra final, posteriormente.

Infelizmente, a tendência de hostilizar a imprensa vem se tornando um fenômeno mundial. Na Venezuela, o governo tirou do ar a CNN em espanhol depois de uma reportagem especial denunciando um esquema de concessões ilegais de passaportes a cidadãos do Oriente Médio. Em lugar de investigar a questão, optou pela violência da censura. E nos Estados Unidos, terra das liberdades, o presidente Donald Trump declarou “guerra” à imprensa em virtude da maré de críticas que se adensa desde a sua campanha eleitoral.

O problema aqui, nos Estados Unidos e na Venezuela, é evidentemente da irrealidade entre a teoria e a prática. Justamente a matéria-prima do bom jornalismo, que trabalha com as contradições dos fatos e das fontes. Uma sociedade justa (em permanente vigilância contra a injustiça) precisa ser, acima de tudo, tolerante. Não uma sociedade repressiva, inclinada à censura. A tolerância, como a liberdade, é uma conquista rara e exige atenção e exercício diário.

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