Intolerância e banqueirofobia

É um choque que Dilma, egressa da resistência à ditadura, force o Santander a pedir desculpas por relatório singelo e o Banco Central tente processar criminalmente Alexandre Schwartsman (pedido não aceito pela Justiça) por crítica à política monetária.

Mas talvez não seja um choque, pela intolerância demonstrada pelo PT a críticas, por papos sobre “controle social da mídia”, “comitês populares”, aparelhamento de agências que são independentes nas democracias — e na lei brasileira, das ANP, Aneel e Anac ao IBGE — e perseguições fiscais e regulatórias a empresas. Talvez não seja a Dilma. A intolerância ativa os puxa-sacos, os de espinha dorsal flácida, e está jogando a história do PT no lixo.

É um choque que Dilma acuse Marina de querer favorecer banqueiros. Marina fez promessa de que, se eleita, proporia uma lei votada pelo Congresso, criando um mandato e um regime operacional (metas para a inflação) para o Banco Central, que o isolaria das convicções e humores diários do Executivo. Prática antiga de democracias consolidadas. Políticas monetárias sob controle do Executivo apavoram empresários e consumidores e amplificam riscos. Bancos são compradores de risco. Quem favorece bancos hoje é a Dilma, com sua maior oferta de risco.

Mas talvez não seja um choque a mentira de Dilma. Na galeria de vilões usada por políticos populistas que abusam dos piores sentimentos populares, os banqueiros estão em primeiro lugar. São parasitas que ganham dinheiro enquanto dormem. Não produzem riqueza. Sem princípios.

Bancos fazem o encontro dos que poupam com os que precisam investir ou gastar hoje e operam os sistemas de pagamentos, complexamente mundiais. São vitais

Dilma aproveita-se de sentimento antigo. A antipatia aos que emprestam a juros vem da Suméria (Samuel Kramer), passa pela Bíblia (Deuteronômio, 23), pela visão de valor de Marx e cristaliza-se no “progressismo” americano de cem anos atrás, quando Wall Street já era chamado de O Polvo. Os nazistas, fascistas e integralistas odiavam banqueiros. Um político brasileiro escreveu livro infame (“Brasil — Colônia de banqueiros”, de Gustavo Barroso, de 1934).

Bancos fazem o encontro dos que poupam com os que precisam investir ou gastar hoje e operam os sistemas de pagamentos, complexamente mundiais. São vitais. Mas expressões e imagens associadas a eles (lucros abusivos, juros extorsivos) ignoram que bancos, depois de pagar pelos recursos que captam (despesas operacionais, reservas para perdas e impostos), satisfazem-se com metade de 1% dos empréstimos, para remunerar seus acionistas e para futuros investimentos que lhes permita crescer 10% em lucro por ação. Isso num ambiente de enormes riscos, muito competitivo, gigantescos custos transacionais e agravado pela intemperança monetária dos governos. Não há outro setor envolto em tantas variáveis. E, como são vitais e vivem neste ambiente emocional, bancos hesitam em se defender publicamente, criando reputação de que controlam governos por baixo dos panos.

Banqueiros não são super-ricos. Apenas um entre as cem maiores fortunas da história americana. Nenhum entre os 20 mais ricos da história americana (CNN). Na lista Forbes 2014 das 500 Maiores Fortunas mundiais, nenhum banqueiro está entre os primeiros 75.

E, olhando-se bem, vê-se que tais banqueiros possuem gigantescas sociedades não financeiras. Só emprestando dinheiro, não chegam lá. Como é o caso do único brasileiro banqueiro na lista Forbes. Bancos se tornaram corporações, tendo como donos investidores institucionais e administração profissional. Há 30 anos ou menos atuais banqueiros eram bancários.

Fonte: O Globo, 30/09/2014

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