O Globo, 30 de janeiro de 2006 Grandes deslocamentos de massas humanas em busca de melhores condições materiais forjaram a História. Concluída a etapa mediterrânea da globalização, obra da civilização greco-romana, seguem-se 1.000 anos de invasões bárbaras e choques com civilizações diversas. As invasões são descritas por Tim Newark em “Os bárbaros: guerreiros da Idade das Trevas” (1985): os godos e hunos nos séculos IV e V, os visigodos e vândalos no século V, os ostrogodos e francos no século VI, os mouros e árabes nos séculos VII e VIII, os vikings nos séculos IX e X, os magiares e mongóis dos séculos VI ao XIII. “Nunca, desde que as falanges espartanas pereceram no desfiladeiro das Termópilas, a civilização ocidental esteve tão próxima da extinção”, de acordo com a instigante hipótese de Thomas Cahill em “Como a Irlanda salvou a civilização” (1995): preservando os clássicos greco-romanos e a cultura judaico-cristã em monastérios católicos durante a Idade das Trevas. “Ao final de dezembro do ano 406, em mais um dia extremamente frio, congela-se finalmente a superfície do Rio Reno, surgindo então uma sólida ponte natural pela qual estiveram ansiosamente esperando centenas de milhares de homens famintos, suas mulheres e crianças. Nos últimos momentos de calma antes de estourar o pandemônio, nem as tribos germânicas nem os disciplinados soldados romanos do outro lado do rio percebiam seu lugar na História. Com coragem e desespero, lançando-se em ondas sucessivas, apenas os vândalos, uma das tribos, perderam 20.000 homens na tentativa de travessia.” As invasões bárbaras lembram o choque cataclísmico produzido pelo mergulho de 3 bilhões de pessoas na atual etapa eurasiana da globalização. Os bárbaros, destituídos em busca de um futuro melhor, são o Leste Europeu, a Rússia e a China, que experimentaram radicalmente o socialismo. A ponte sólida de gelo sobre o Reno são os fluxos de comércio em que se lançam na tentativa de travessia rumo às terras ricas das províncias romanas — os prósperos mercados de massa dos EUA e da Europa. O capitalismo nunca mais será o mesmo. Os sinais da nova ordem global, transmitidos pelo sistema de preços internacionais, indicam oportunidades e riscos para a economia brasileira. A explosão de preços de recursos naturais, commodities, produtos agrícolas e matéria-prima dissolveu a vulnerabilidade externa, permitindo a acumulação de reservas, a redução da dívida em moeda estrangeira e a valorização do câmbio. E o excesso de poupança global derrubará dramaticamente as taxas de juro reais e o custo de capital das empresas. Mas a própria valorização irresistível do real, se por um lado registra nosso enriquecimento recente, por outro transmite uma terrível ameaça: os indianos e chineses nos informam que a produção de automóveis, produtos têxteis, móveis, calçados e geladeiras poderá ser erradicada do Brasil. Como estiveram os árabes sentados em barris de petróleo em meio à ignorância das massas, poderemos nos sentar em minérios e matérias-primas em meio à desindustrialização. Sem legislação trabalhista, encargos previdenciários e custos adicionais de mão-de-obra, os trabalhadores da antiga ordem socialista se transformam em cunhas de competitividade para a penetração nos mercados ocidentais. Mas não o fazem por mal. São apenas uma versão moderna dos grandes deslocamentos de massas humanas em busca de melhores condições materiais.

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