O inverno do patriarca

O roteiro de um filme sobre a história real de Lula seria recusado por qualquer produtora, por fantasioso e inverossímil

Lula diz que prefere a morte a entrar para a história como um mentiroso. Mas essa é uma de suas maiores mentiras.

Ele ama o poder, a glória e a boa vida e nunca teve vocação para mártir, embora na astrologia seja do signo do escorpião, que, cercado pelo fogo, prefere ferroar a si mesmo a se entregar.

Ainda há uma questão semântica: as bravatas, em que ele é mestre, tecnicamente, são consideradas mentiras ou exageros? Há controvérsias.

Lula aprendeu com Dilma, ou ela com ele, a chamar de “querida” (com aspas) quem lhe faz perguntas incômodas. Em Curitiba, ele foi advertido porque insistia em chamar de “querida” a procuradora que o interrogava, mas não chamava de “querido” os procuradores machos. E sempre se referia a sua mulher, sua verdadeira querida, como “Dona” Marisa, a responsável pela administração da família.

Em 2009, Ali Kamel publicou o “Dicionário Lula — um presidente exposto por suas próprias palavras”, uma compilação de 672 páginas com o que Lula disse sobre os mais diversos temas, sem correções, direto da fonte.

O verbete “Discurso” tem muitas citações, algumas premonitórias: “Um dia vão ganhar dinheiro pela quantidade de discursos que eu faço todos os dias. Eu ficaria milionário”.

No dicionário, ele se revela um personagem riquíssimo e contraditório, ou como ele mesmo reconhece, uma metamorfose ambulante. Imaginem de lá para cá! Esperamos um volume 2.

Um de seus clássicos é dizer que aprendeu com sua mãe a não abaixar a cabeça para ninguém. Mesmo quando está errado, não reconhece seus erros e nem se responsabiliza por eles. Pedir desculpas, nem pensar. Mas ele vive dizendo a juízes, delegados e procuradores que espera que eles lhe peçam desculpas um dia.

Ao contrário do sucesso do filme da Lava-Jato, “Lula, o filho do Brasil” foi um fracasso retumbante nos cinemas, contando a sua infância e juventude. Mas um filme com o resto da sua história até hoje certamente seria um sucesso. O problema é que um roteiro factual, documental, contando fielmente a sua história, seria recusado por qualquer produtora do mundo, por fantasioso e inverossímil.

Fonte: “O Globo”, 15/09/2017

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