O mundo experimenta ao longo dos últimos dois anos um processo colossal de destruição de riqueza. Os cálculos giram em torno de pelo menos US$ 60 trilhões. Após duas décadas de extraordinária criação de riqueza por meio da globalização e de novas tecnologias, o ritmo vertiginoso do atual colapso financeiro é assustador.

As perdas financeiras têm a natureza de uma correção dos excessos cometidos na fase anterior. A queda dos preços dos mercados acionários, dos imóveis e dos ativos financeiros lastreados nesses imóveis é a manifestação dessa correção. É por isso que essas manifestações têm maior intensidade na economia americana, o epicentro da crise.

Mas um aspecto marcante nas duas décadas em que se deu essa criação de riqueza é a importância crescente do capital intangível na riqueza dos indivíduos, das empresas e das nações. Na sociedade do conhecimento, com uma economia baseada em serviços, o capital humano (a educação dos indivíduos) e o capital organizacional (a cultura empresarial que coordena os esforços produtivos) tornam-se cada vez mais sua coluna de sustentação.

O colapso dos preços dos ativos financeiros, que são na verdade apenas certificados de propriedade de capitais tangíveis – fábricas, máquinas, equipamentos, imóveis –, apesar de importante ameaça à atividade econômica, não significa necessariamente o colapso da produção e do emprego.

Bem além dos esforços macroeconômicos, de políticas monetária e fiscal para estimular uma recuperação dos preços dos ativos financeiros, o verdadeiro fenômeno de sustentação da atividade econômica moderna é a importância crescente dos capitais intangíveis, como a força das instituições, a cultura empresarial, a educação da força de trabalho, refletindo a qualidade e a sofisticação dos esforços produtivos de um povo.

É o valor desse capital humano, desse capital institucional, desse capital organizacional, menos visível e menos volátil, que sustenta a moderna sociedade do conhecimento.
Mais do que nunca, o Brasil precisa investir
na formação de capital humano

Agora mesmo, em viagem pelos Estados Unidos, constato que os setores convencionais onde ocorreram excessos estimulados por crédito, como a indústria automobilística, a construção civil e o setor financeiro, estão destruindo empregos. Por outro lado, saúde e educação estão criando empregos. Continuam trabalhando em bom ritmo os setores ligados à formação e à preservação do capital humano.

A economia de um país é um enorme e complexo sistema vivo, aberto e repleto de dissonâncias. No Brasil, com suas dimensões continentais, estão hoje nas manchetes os indicadores de desaquecimento econômico e destruição de empregos. Mas os sinais da crise convivem com um fenômeno recente, que manifesta a criação de riqueza no país: a ascensão da classe média, que expandiu o consumo e se tornou, com 86 milhões de brasileiros, a maior do país.

Mais do que nunca, é necessário cuidar do capital humano para garantir a ampliação sustentável dessa classe média. As transferências de renda, pensões, aposentadorias e o crédito consignado são fatores transitórios, que podem apenas deflagrar o processo. O aprofundamento do fenômeno depende da recuperação de uma dinâmica interna de crescimento, com base no aumento da produtividade do trabalhador brasileiro.

Esse aumento de produtividade pode se iniciar com desregulamentação e reformas de impacto imediato. A redução dos encargos sociais e trabalhistas permitiria a transferência da mão de obra de empregos informais de baixa produtividade para empregos formais de maior produtividade. Essa verdadeira inclusão social é quase sempre impedida por legislação inadequada.

A longo prazo, o aumento sustentável da produtividade de nossa mão de obra é indissociável de investimentos maciços em educação. Estamos criando um formidável mercado de consumo de massa. O capitalismo eurasiano, uma selvagem variante sem encargos trabalhistas e previdenciários, quer nos transformar em um mercado de importações em massa. Daí a necessidade de uma onda de investimentos na formação de capital humano, ampliando as capacitações e habilitações do trabalhador brasileiro. Só a educação pode tornar o país um mercado de produção em massa.

(Época – 30/03/2009)

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