Ir além das velhas soluções

O diagnóstico é certo e determinado: o Estado brasileiro está falido e inoperante. Durante décadas, usou-se e abusou-se de paliativos, mascarando os sintomas sem atacar a patologia em si. Deu no que deu. Agora, a conta chegou; não adianta fugir nem aplicar morfina na veia. Sabidamente, só há cura com tratamento eficaz. Hora, portanto, de encarar os fatos e enfrentar a realidade. O desafio é romper com o círculo vicioso da irracionalidade crônica e passar a impor uma lógica funcional para o desarranjo governamental estabelecido.

Como bem aponta Tom Nichols, em seu excelente The Death of Expertise, as soluções tradicionais não funcionam mais. O desenvolvimento da vida impõe novas formas de pensamento. E só o pensamento crítico nos levará a medidas transformadoras de impacto. Objetivamente, os desafios da contemporaneidade somente serão superados com criatividade intelectual associada ao ímpeto inovador daqueles que não aceitam as inconsistências do viver.

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Num mundo de transformação exponencial, não podemos mais incentivar o mau hábito da dependência estatal, da paralisia econômica e da agressiva implosão das contas públicas. Aliás, o gritante aspecto antieconômico do Estado brasileiro é maior evidência de que temos estruturas parasitárias que sugam riquezas em vez de promover desenvolvimento. Por assim ser, é absolutamente impossível impor uma matriz de crescimento sustentável sem a imediata contenção da sangria que aniquila o necessário equilíbrio fiscal.

Se, por um lado, o Estado brasileiro está refém de firmes amarras classistas que se projetaram sobre gigantescas fatias do orçamento público, do outro, não conseguimos criar uma cultura participativa e de engajamento cívico que nos faça quebrar paradigmas e impor novas práticas. Há um claro hiato entre o querer individual e o fazer coletivo. Com efeito, a ponte que une os pontos de uma sociedade plural chama-se “política”. Sim, essa palavra tão desmoralizada de sentindo continua sendo o principal caminho para o aperfeiçoamento da vida civilizatória.

É claro que a solução não está na política que aí está. As insuficiências e insucessos das atuais instituições são flagrantes e evidentes. Na verdade, temos de começar a botar abaixo certos dogmas acriticamente recebidos como se inquestionáveis fossem.

Ora, a partir da absoluta decadência e paralisia da vida parlamentar brasileira, temos de indagar, por exemplo, a utilidade de um sistema bicameral. Há necessidade de um Senado e de uma Câmara de Deputados? O trabalho de nossos políticos justifica a manutenção de duas casas legislativas com sua vasta gama de assessores, cargos de confiança e regalias infinitas? Vale pagar fortunas por essa estrutura para receber nada em troca?

Enfim, são questionamentos assim que nos levarão às respostas certas para mudar o Brasil. Não podemos mais simplesmente aceitar situações. A democracia requer o espírito crítico e a independência de condutas da cidadania consciente. Mais que emparedar os dinossauros da velha política, precisamos apresentar modelos alternativos factíveis que nos conduzam a uma institucionalidade mais ágil, eficiente e responsiva. Nos próximos anos, teremos todas as ferramentas tecnológicas possíveis para impactar verticalmente a realidade, criando um choque de inovação sobre o ultrapassado sistema político brasileiro. Mas política, antes de uma tecnologia, é uma arte a serviço do talento humano. Teremos, então, a atitude cívica necessária à retomada qualitativa da democracia?

Fonte: “Gazeta do Povo”, 10/11/2017

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