Iraque: choque e espanto

Há 11 anos, Kadom Al-Jabouri ficou famoso como o homem que, com uma marreta na mão, começou a derrubar a estátua de Saddam Hussein na Praça Firdos, em Bagdá.

A imagem supostamente legitimava a ação de EUA e aliados na queda da ditadura que controlava o país desde 1979. Era expressão da alegria com que oprimidos iraquianos “respiravam o ar da liberdade”.

Mecânico de automóveis, Al-Jabouri passara uma década na prisão de Abu Graib durante o Regime de Saddam. Cometera o crime de contar a vizinhos que Uday, filho do tirano, não lhe pagara pelo conserto de uma motocicleta.

Ano passado, falando ao Guardian, lamentou ter se tornado símbolo da queda do ditador. Afirmou:“com Saddam, tínhamos um ditador. Hoje, temos centenas. Nada mudou. Tudo piora o tempo todo. Não há futuro”.

Desde a intervenção de 2003 o Iraque não firmou um modelo de governo que, por um lado, desse conta dos anseios do Ocidente e, por outro, dos vários grupos étnicos, religiosos e políticos que compõem o país.

Um Iraque estilhaçado é indesejável a praticamente todos os atores da região e, sobretudo, às potências ocidentais

Nessa ausência de um Estado inclusivo, que durante o governo do atual premiê Nuri Al-Maliki deixou a comunidade sunita ainda mais escanteada, os conflitos se multiplicaram. O Iraque ruma célere para uma Guerra Civil aberta.

Para governos centrais estabelecidos no Oriente Médio, a descida do Iraque ao inferno chamuscará a todos. Um Iraque estilhaçado é indesejável a praticamente todos os atores da região e, sobretudo, às potências ocidentais.

É abominante o quadro em que eventual Guerra Civil no Iraque resulte num Califado extremista. Este o desejo dos sunitas ultrarradicais do Estado Islâmico do Iraque e Levante (EIIL), que hoje abocanham fatias estratégicas cada vez maiores do território iraquiano.

Acuado pelo avanço do EIIL, o governo de Al-Maliki solicita assistência militar dos EUA. Isto pode barrar o avanço dos radicais, mas pouco contribui para uma ordem política pluralista no Iraque.

A saída ideal para a atual crise iraquiana recolocaria a ONU no centro do palco. No plano militar, uma força multilateral, sob capacetes azuis, arregimentada pelas grandes potências e em cooperação com os principais atores da região, dentre eles o próprio Irã.

A ela seguiria, no campo político, renovada presença de profissionais da ONU treinados em missões de manutenção de paz e construção institucional.

Tal hipótese, no entanto, é altamente improvável. O Conselho de Segurança, dadas as atuais divergências entre EUA e Rússia, encontra-se inoperante.

E a experiência recente da ONU no país é traumática. Há quase 11 anos, o terror ceifava a vida do grande brasileiro Sérgio Vieira de Mello, à época Representante do Secretário-Geral da ONU, e de mais 21 funcionários da Organização.

Em 2003, o conceito de “choque e espanto” foi implementado nos ataques intensos a instalações militares e industriais iraquianas. Rápida vitória no campo de batalha precipitaria ampla mudança política.

Hoje, a expressão é útil para descrever o sentimento de que, no Iraque, o pior ainda está por vir.

Fonte: Folha de São Paulo, 20/6/2014

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1 comment

  1. Regina Caldas

    e, segundo analistas, a vitória dos radicais poderá mudar todo o mapa do OM.