Com o fracasso da Rodada Doha da OMC, os EUA devem voltar a priorizar os acordos de livre-comércio com os países hemisféricos. O governo Bush já se notabiliza por ter negociado grande quantidade de acordos do gênero com parceiros regionais. Por isso, é possível que os Estados Unidos aprofundem as negociações da ALCA no âmbito bilateral, contribuindo para que o Mercosul fique cada vez mais isolado. Em 2002, Bush conseguiu obter do congresso americano o chamado Trade Promotion Authority (TPA), mecanismo legal que permite ao Executivo negociar acordos comerciais com maior liberdade. É claro que o TPA limita os temas a serem negociados, mas, ao menos, assegura aos parceiros de comércio dos EUA que não haverá emendas aos acordos, já que os parlamentares só poderão aprová-los ou rejeitá-los integralmente. O problema é que o último TPA foi prorrogado por dois anos em 2005 e vai expirar em julho de 2007. E o governo tem pouca esperança de que os lobbies protecionistas permitam que o Congresso aprove outro. A atual estratégia da Casa Branca é negociar temas como serviços, investimentos e propriedade intelectual na OMC, na ALCA e, também, diretamente com os países interessados. O fato de todos os membros da OMC terem direito a veto tende a gerar impasses difíceis de serem contornados, como o que ocorre no momento. Enquanto os europeus fazem jogo duro para reduzir o protecionismo agrícola, os EUA não param de subsidiar a produção de seus agricultores e o G20, encabeçado pelo Brasil, evita uma abertura comercial mais abrangente. Dessa forma, a atual suspensão da Rodada Doha por tempo indeterminado e o fim do TPA dentro de alguns meses indicam que haverá tentativas de aprofundamento das negociações bilaterais por parte dos EUA. O Brasil, contudo, prefere negociar os temas caros aos americanos no âmbito multilateral da OMC, que, como já se sabe, anda meio conturbado. Na ALCA, o país não negocia individualmente, mas como Mercosul. Se já era difícil para os negociadores brasileiros harmonizarem interesses de parceiros tão dispares quanto Paraguai, Uruguai e Argentina, imagine agora, com a entrada da Venezuela no bloco. Basta lembrar que durante a IV Cúpula das Américas, em Mar Del Plata, no final de 2005, Hugo Chávez, discursando por duas horas seguidas, como uma imitação barata de Fidel Castro, afirmou que havia trazido a pá de cal para enterrar a ALCA. Assim, o único tabuleiro de negociação significativo que resta ao Brasil é o da União Européia. E negociar com os europeus não é nada simples. Prevendo dificuldades nas negociações convencionais da ALCA e, também, na OMC, os EUA tem fechado acordos de livre-comércio com diversos países da América Central e com alguns da América do Sul, área estratégica de atuação brasileira. Chile, Colômbia, Peru já têm acordos com o país e o Equador deve seguir o mesmo caminho. No começo do ano, o Mercosul estremeceu quando soube do interesse uruguaio de se associar aos Estados Unidos. E, nem mesmo a Venezuela, maior opositora declarada do Tio Sam, abre mão da parceria, já que o país é o maior importador do petróleo revolucionário-bolivariano de Chávez. Parece que a ALCA vai sair independentemente da vontade brasileira. O Brasil é o país que detém uma das economias mais diversificadas da região e, talvez, o que tenha menos motivos para se isolar dentro de um bloco mercantilista como o Mercosul. Apesar de não ser o único culpado pelos impasses nas negociações, atualmente, o maior desafio brasileiro é conseguir superar a fobia do livre-comércio.

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