Quinta-feira, 8 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

Isolamento comercial brasileiro é resultado de ranço ideológico

Praticar trocas voluntárias com os vizinhos é algo desejável, não é mesmo? Todos podem compreender facilmente isso: basta pensar como seria a vida com base na autossubsistência. Seria um caos!

Quando focamos nossas energias em alguma especialização, de preferência com base em nossas vantagens comparativas, e depois trocamos o fruto do nosso trabalho por outros produtos demandados no mercado, isso é claramente vantajoso.

Enquanto o país se fechava ao comércio global, tomou corpo uma miríade de acordos bilaterais e regionais

Por que, então, ampliar mais esse mercado de trocas voluntárias seria ruim? Por que “proteger” certos produtores, somente por terem nascido no Brasil, faria algum sentido econômico? Não há lógica por trás desse protecionismo.

Mas o ranço ideológico não desaparece facilmente, e o mercantilismo, que já fora refutado por Adam Smith no século XVIII, continua seduzindo muitas mentes nacionalistas e estatizantes por aí. O PT é um caso claro.

O governo lulopetista foi marcado pelo viés protecionista, e o Brasil, um país já extremamente fechado, fechou-se ainda mais. O Mercosul virou nossa camisa de força ideológica, engessando nossas empresas e impedindo acordos de livre comércio com outros países mais relevantes.

Como cheguei a brincar, em política externa um país pode ser rabo de baleia, quando segue na crista da onda da globalização com um grupo maior, ou cabeça de sardinha, quando resolve bancar o líder de um grupo insignificante. O Brasil petista inovou e virou rabo de sardinha, ao deixar países como Venezuela, Argentina e Bolívia abusarem de nossas empresas.

Com a notícia de que países que representam 40% do PIB global chegaram a um grande acordo de livre comércio, que vai derrubar barreiras e tarifas alfandegárias em suas fronteiras, o custo dessa postura ideológica do PT ficou ainda maior, como resume o editorial do GLOBO de hoje:

Os danos para o Brasil são mensuráveis. No ano passado, 25% das exportações nacionais destinaram-se a mercados do bloco do TPP. Devem, portanto, sofrer imbatível concorrência de outros membros do grupo. Em produtos manufaturados, 35% da pauta brasileira serão afetados. Justo num segmento em que o país já enfrenta graves problemas de competitividade, por não se abrir às cadeias globais de suprimento. A desvalorização cambial pode ajudar, mas não é elixir milagroso que contrabalance atraso tecnológico, por exemplo.

Que o lançamento da pedra fundamental do TPP seja decodificado no Planalto como lição definitiva de que o Brasil precisa descontaminar a política comercial das ideologias terceiro-mundistas da década de 50 que passaram a intoxicar o país a partir de 2003. Há até o risco de o comércio exterior não servir de alavanca poderosa na recuperação do crescimento como em crises anteriores. O preço a pagar é alto por todos os erros cometidos na política externa.

Estamos num atoleiro por simpatias ideológicas do PT, como diz o jornal. O Brasil petista se esforça, por exemplo, para se reaproximar da Bolívia de Evo Morales. Enquanto isso, a Aliança do Pacífico, do time de países latino-americanos que evitaram o flerte com o bolivarianismo, segue em situação bem melhor que a nossa, graças ao pragmatismo. O elevado custo brasileiro dessa ideologia também foi tema do editorial da Folha:

Quanto ao Brasil, o acordo, além de evidenciar nosso atraso, traz riscos para as exportações. No comércio agrícola entre os parceiros, que movimenta cerca de US$ 300 bilhões anuais, o acesso brasileiro pode ser prejudicado.

Nos últimos anos, enquanto o país se fechava ao comércio global em uma estratégia protecionista anacrônica, tomou corpo uma miríade de acordos bilaterais e regionais firmados à revelia do multilateralismo preconizado pela Organização Mundial do Comércio, que por ora agoniza.

Urge que o país abandone a paralisia e defina uma estratégia efetiva de integração global. Um bom início seria que o Mercosul deixasse de ser uma união aduaneira, em que todos os membros adotam tarifas comuns para importados de outras regiões, e passasse a operar como zona de livre comércio.

Mas falar em globalização e livre comércio com petistas ainda é como falar de Demônio e Capeta com crentes: eles ficam apavorados, acham que estão diante do próprio Mal, pois enxergam o mundo com uma obsoleta lente marxista-leninista de exploradores e explorados, culpando o capitalismo pela miséria dos miseráveis. Até quando vamos insistir nessa mentalidade tosca e ultrapassada?

Fonte: Instituto Liberal, 07/10/2015.

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