“A construção em Jerusalém — e em todos os outros lugares — prosseguirá na forma que tem sido costumeira ao longo dos últimos 42 anos”, assegurou o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu perante os dirigentes de seu partido, o Likud. A referência aos “42 anos” tenta veicular as ideias de continuidade e estabilidade. Mas a ideia de ruptura é a chave para entender a decisão de prosseguir a estratégia adotada desde a Guerra dos Seis Dias e a ocupação dos territórios palestinos.

Israel persiste na transferência de judeus para Jerusalém Oriental e a Cisjordânia enquanto mudam o seu entorno e o mundo.

A sabotagem das negociações de paz representada pela estratégia inflexível atinge interesses vitais dos EUA no chamado Grande Oriente Médio, como enfatizou o vice-presidente americano Joe Biden, referindo-se às tropas no Iraque e no Afeganistão e à política de contenção do Irã. O fato evidente é que as opções nacionais de Israel tornam-se cada vez mais disfuncionais, do ponto de vista da geopolítica global de Washington.

Contudo, o problema candente das fissuras no edifício da aliança com os EUA, apontado por tantos analistas, empalidece diante de um outro. Hoje, a persistência do governo israelense ameaça destruir os fundamentos políticos sobre os quais repousa o próprio Estado de Israel.

Israel não pode ter três coisas simultaneamente: 1) um Estado judeu; 2) um Estado democrático; 3) um Estado que exerce soberania sobre toda a Palestina histórica. Só é possível ter duas dessas coisas, em qualquer combinação.

A primeira hipótese, um Estado judeu e democrático, convivendo lado a lado com um Estado palestino, é a meta professada por todos os governos israelenses e também pela Autoridade Palestina desde os Acordos de Oslo de 1993. Entretanto, a continuidade dos assentamentos evidencia a distância entre o discurso oficial e a vontade real de alcançar uma paz baseada na partilha, que depende de um acordo aceitável para os palestinos.

A segunda hipótese, um Estado judeu que exerce soberania sobre toda a Palestina histórica, é a meta mais ou menos explícita do pólo minoritário de partidos nacionalistas e religiosos que atualmente desempenha o papel de fiel da balança nas coalizões governistas israelenses.

A possibilidade existe, mas implica a renúncia à democracia, além de uma guerra de ocupação permanente.

Há pouco, a população árabe-palestina ultrapassou a população judaica no conjunto Israel/Palestina. O desequilíbrio demográfico tende a aumentar, em virtude da desigualdade nas taxas de crescimento vegetativo e do virtual encerramento da imigração em massa para Israel, depois da conclusão do ciclo recente de ingresso de judeus russos. O Estado judeu em toda a Palestina histórica configuraria uma ditadura imposta à maioria de seus habitantes e um regime de tipo apartheid, que condena a maioria a viver sob o estatuto de não cidadãos.

A terceira hipótese, um Estado democrático no território integral da Palestina histórica, é a meta almejada por correntes de esquerda muito minoritárias tanto entre os israelenses quanto entre os palestinos. Tal solução redundaria na renúncia à natureza judaica de Israel, pois geraria um Estado binacional, com direitos iguais para todos os seus habitantes. Nesse horizonte, extinguirse-ia historicamente o sionismo, doutrina na qual se condensou o moderno nacionalismo judaico.

O tríplice entroncamento histórico desenhou-se a partir da ocupação dos territórios palestinos, em 1967, e da subsequente colonização judaica da Cisjordânia e da parte leste de Jerusalém — uma estratégia justificada inicialmente por alegações de segurança e, depois, sob argumentos histórico-religiosos. A primeira intifada (revolta) palestina, na década de 80, incutiu na elite política de Israel a consciência das opções existentes.

Os Acordos de Oslo, reconhecimento diplomático da presença de uma nação palestina com direito a constituir-se em Estado, refletiram essa consciência — e a escolha deliberada da única alternativa capaz de assegurar o futuro de um Estado judeu e democrático.

Mas a palavra solene inscrita num tratado não resiste à corrosão do tempo e das intempéries. A paz, proclamada como intenção, converteu-se num amargo eufemismo para a ocupação, a colonização, a humilhação e a despossessão.

Sob o impacto do eufemismo, desmancha-se a liderança nacionalista palestina comprometida com a meta da partilha. Num eloquente atestado da falência definitiva do processo de Oslo, Mahmoud Abbas, o líder fraco que ainda conecta os palestinos ao compromisso de 1993, anunciou uma decisão de não concorrer à reeleição. Os palestinos estão próximos de um limiar histórico.

Na hora em que abdicarem de seu prometido Estado, só restarão as hipóteses da abolição da democracia ou do caráter judaico de Israel.

Israel não está sozinho na Terra Santa.

A chave da porta do futuro está partida ao meio e metade dela pertence aos palestinos. A implosão iminente da Autoridade Palestina dividirá os palestinos entre a liderança fundamentalista do Hamas, cuja corrente mais extremada insiste na destruição de Israel, e os líderes nacionalistas democráticos que perderam a crença na solução dos dois Estados. O desafio existencial posto pelos extremistas do Hamas sempre poderá ser respondido pela força das armas. Mas avultará, inevitavelmente, um desafio de natureza diferente, imune à força bruta e expresso pela reivindicação de direitos políticos iguais para todos os habitantes do conjunto Israel/Palestina.

“Não mais queremos um Estado, que só existiria sob a forma de fragmentos territoriais desconexos governados por déspotas dependentes do estrangeiro. Exigimos direitos de cidadania iguais aos usufruídos pelos cidadãos judeus de Israel.” A política de Netanyahu ergue o mastro no qual tremulará essa bandeira. A prudência manda Israel refletir sobre isso.

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