Autor Convidado: Sol Moras Segabinaze

Já fui de esquerda. Achava que todos os problemas nacionais se resolveriam com “vontade política”. Olhava com admiração os militantes canhotos, socialistas idealistas e altruístas, legítimos redentores das massas espoliadas pelo capital internacional. Pura ignorância e prepotência juvenil. Após travar intensos duelos com a lógica e a razão, e ser confundido pela mídia esquerdista e pelos meus professores-doutrinadores, que insistiam em insustentáveis teorias marxistas, percebi que todo aquele mise-en-scène ideológico não passava de um imenso embuste a serviço da submissão do indivíduo ao Estado. Meu engajado professor de sociologia, por exemplo, se enveredava em verdadeiros malabarismos verbais pra tentar explicar a tal da mais-valia, e assim justificar a sua tese da “exploração capitalista”. Mas esse papo extemporâneo de “burgueses se apropriando do excedente do preço sobre o custo do trabalho do proletariado” não entrava na minha cabeça. Uma confusão que superei quando descobri que os preços e os salários se definem pelo encontro entre a oferta e a demanda, no plebiscito permanente e subjetivo que é o mercado. Ou seja, são os consumidores que dão as cartas no capitalismo liberal, esse bicho estranho que ainda não deu o ar da graça no país da burocracia e do futebol. Por aqui, o maniqueísmo “explorador” versus “explorado” permanece como um postulado respeitável, e coitado de quem denunciar esse equívoco, argumentando que o “explorador” existe sim, e é o governo, que não cria riqueza alguma e sobrevive às custas dos extorsivos impostos pagos pelos trabalhadores da iniciativa privada, os verdadeiros “explorados” nessa lamentável “luta de classes”. Não é à toa que o sonho da maioria dos brasileiros é entrar para o serviço público, com estabilidade, um salário acima da média e pouco, ou nenhum, compromisso com a eficiência. Não critico o funcionário público, critico o sistema que permite essa situação. Na minha antiga faculdade, particular por sinal, a doutrinação comunista e anti-capitalista tinha uma outra faceta: o nacionalismo xenófobo de alguns professores. Um deles, famoso pela disciplina militar que impunha às aulas, tinha ataques coléricos quando algum aluno confessava que gostava, por exemplo, de rock: “Isso é um sinal da colonização degradante que o imperialismo estado-unidense impôs às mentes fracas da nossa juventude perdida.” Era esse o discurso do nosso “mestre”, que glorificava tudo o que era “essencialmente nacional, como a cultura indígena, africana e dos povos ibéricos.” Um blá blá blá nazionalista que não só ignorava o fluxo livre das informações e predileções pessoais, como reprovava essa realidade com taxativos “zeros” nas testas de quem não macaqueasse nas provas os seus sábios “ensinamentos”. Posso gostar de Sigur Rós, professor? “De jeito nenhum, seu dever cívico é apoiar os cantadores de cordel, os sambistas da velha guarda da Mangueira e o Museu do Índio”. Mas a banda nem é americana… “Não importa, já está contaminada pela dominação cultural imposta pelo capital internacional especulativo liderado pelos estado-unidenses.” Não agüentei essa insanidade, e simplesmente parei de freqüentar essas “aulas”. Preferia passar o meu tempo na biblioteca lendo, sem a interferência ruidosa de professores revoltados com a desigualdade da materialidade, que conclamavam ad nauseum a “transformação” da sociedade, antes mesmo de compreenderem a realidade.
Autor Convidado: Sol Moras Segabinaze

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