Já é mais do que hora de
mudar tudo o que está aí

Londres

Lá fora, lavra solta a especulação. Aqui dentro, a corrupção é que lavra solta.

A especulação financeira mundial chegou aonde muitos chefes de governo sérios, e muitos economistas, prognosticaram: ela ameaça a estabilidade das bolsas, dos bancos, dos títulos dos governos, dos fundos de aposentadoria, dos financiamentos imobiliários, das poupanças individuais. E, por tabela, ataca a economia real, decretando falências de empresas produtivas, gerando recessão, desemprego, cortes de investimentos públicos, desespero nas famílias e sobressalto quanto ao futuro. Efeitos que, por sua vez, desencadeiam a fúria das multidões, os protestos, o quebra-quebra, os riots, como na Espanha, na Grécia, na Irlanda, em Londres e, talvez ainda, na França e até na Alemanha.

Só nos Estados Unidos não se vê quebra-quebra e arruaça, embora o desemprego seja elevado e desanimadoras as perspectivas para a economia. Desespero e desconsolo explodem ali em atos individuais de selvageria: tiroteios a esmo, nas escolas e nas lanchonetes. Estranho, não? Por que será? Não sei. Os sociólogos que tentem responder.

Aqui dentro, o avanço despudorado da corrupção é que desconcerta e desacorçoa. Tira o entusiasmo pela democracia que levamos quase 500 anos para conquistar. Sim, porque, na verdade, só começamos a conquistá-la a partir de 1985. Em toda a nossa história houvera apenas uma tentativa, de curta duração e fracassada, de 1945 a 1964.

E essa onda de corrupção desenfreada, que de endêmica passou a epidêmica, justamente no período em que melhor se poderia combatê-la, o da estabilidade monetária em que entramos desde 1994 – fato estranho esse também, não? Por que será? -, traz como efeito óbvio, em primeiro lugar, a dilapidação de recursos públicos ultranecessários num país de grandes carências como o nosso. É a corrupção lavrando solta na Saúde, na Educação, nas creches municipais, no recolhimento do lixo, na alimentação escolar, nas obras públicas, no Bolsa-Família, no Turismo, nos Transportes, na Agricultura, ou seja, onde quer que haja dinheiro dos governos – federal, estadual ou municipal – a ser alcançado pelas destruidoras saúvas da política brasileira.

Todas as semanas vemos na TV e nas fotos dos jornais as cenas da Polícia Federal prendendo corruptos na alta madrugada, carregando documentos e computadores, recolhendo maços de dinheiro, algemando facínoras lotados em cargos públicos, da administração direta ou indireta, e membros do baixo clero da política nacional.

Todas as semanas os Tribunais de Contas (da União, dos Estados, dos Municípios) embargam obras por irregularidades, desvios e descaminhos, enquanto algumas corregedorias que ainda se apegam a cumprir fielmente seu papel mandam prender policiais desonestos, promotores e até juízes de direito. Todas as semanas as câmaras especializadas dos Ministérios Públicos encaminham aos órgãos judiciais denúncias de bandalheiras nos três níveis da administração pública.

Não é possível conviver com o efeito deletério desse estado de coisas para o espírito da Nação e, principalmente, para a formação da consciência política dos jovens. Não é preciso ser sociólogo, nem politicólogo, nem filósofo para afirmar que nenhuma sociedade humana aperfeiçoa o seu clima de convívio e sua busca da felicidade e da dignidade num ambiente de indecência permanente, como o que estamos vivendo hoje no Brasil.

Eu sei qual vai ser o teor dos e-mails que uma certa ala de leitores “politizados” dos meus artigos vai enviar. Vão dizer que no tempo de FHC era pior, que no tempo do tucanato a corrupção lavrava solta. Desde já eu concordo, e digo que, muito antes, nos tempos de JK e de Getúlio, quando comecei esta infeliz profissão de observador sempre decepcionado dos acontecimentos, a coisa já era muito ruim.

Mas é exatamente por isso que temos a obrigação, todos nós – petistas, pessedistas, peemedebistas, comunistas, direitistas, socialistas, neoliberalistas ou o que for que sejamos -, de dizer que já “é hora de mudar tudo o que está aí”, dar um basta nessa situação abjeta, em nome da faxina do nosso presente, mas, principalmente, da faxina do futuro dos nossos filhos, netos e bisnetos. Se já não for tarde demais, pois a aterrorizante característica de uma sociedade corrupta é sua capacidade de reprodução continuada.

O mais ignominioso sinal disso é o esforço que a banda podre do governo e da política nacional faz para “enquadrar” a presidente Dilma. Feridos em sua sensibilidade despudorada, seus membros exibem canalhice desmesurada ao falar dos “abusos” da PF, exigem a contenção dos “exageros”, choram a sorte de colegas algemados e conduzidos em camburões. O objetivo é trazer a presidente para o redil da maracutaia, para o valhacouto da indecência, cevado com desfaçatez pelo antecessor. O inquietante é que a coitada permite que áulicos e sabujos divulguem que ela considerou um “acinte” o arrastão da PF sobre os falcatrueiros, quando o que ela precisa é ajudar os brasileiros a exorcizar a pouca-vergonha que tomou conta de muitos gabinetes governamentais pelo País afora.

Sim, pois o que está faltando, no Brasil e no mundo, contra a corrupção interna e contra a especulação externa, em prol da decência humana, é liderança corajosa, governança lúcida e firmeza de caráter que não se está vendo, nem aqui nem lá fora.

Fonte: O Estado de S. Paulo, 15/08/2011

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