Jean Tirole, lições de um Prêmio Nobel

Por Ilan Goldfajn e Irineu Carvalho*

Eram os anos 90. Um discreto professor e pesquisador francês alternava seu tempo lecionando na Europa e no Departamento de Economia do Massachusetts Institute of Technology (MIT). Nos cursos, os alunos aprendiam a desenhar um mecanismo (mechanism design) para regular mercados imperfeitos. Que políticas desenhar quando a informação não flui livremente e a competição não é perfeita? A busca era pela eficiência: incentivar as firmas a produzir pelo menor custo e beneficiar o consumidor. Vivíamos uma revolução, sem saber. O campo da política industrial estava sendo reformulado. As bases para melhores políticas de estímulo à competição recém eram criadas. Não sabíamos na época que estávamos diante do futuro prêmio Nobel de Economia de 2014, Jean Tirole. Sem querer, a Real Academia Sueca de Ciências nos ajuda a focar a eficiência e a produtividade, temas essenciais para nosso futuro.

Tirole foi uma máquina de produzir: regulação econômica, organização industrial, teoria da competição, bolhas de ativos, economia do comportamento, todos foram temas que Tirole desenvolveu. Um dos autores deste artigo chegou a participar de um curso sobre corrupção que ele ministrou durante algumas semanas no MIT.

Mas podemos vislumbrar alguns temas comuns em grande parte de sua obra. Em primeiro lugar, ele sempre focou cuidadosamente os incentivos que as diferentes políticas geram nas firmas e em outros agentes. Nunca ignorou que os agentes atuam estrategicamente, num mundo onde existe assimetria de informação: nem todo mundo tem acesso à mesma informação. Nesse contexto, o uso de técnicas da teoria dos jogos é natural. Em segundo lugar, nunca se rendeu a respostas fáceis, genéricas, para problemas específicos. Seu arcabouço unificado era metodológico, não uma receita pronta. Em terceiro lugar, na direção contrária a algumas forças na academia que incentivam a especialização em contribuições específicas focadas na lógica interna dos novos modelos, Jean Tirole sempre teve como foco a aplicação prática dos seus estudos. Por último, Tirole usava seus modelos de forma rigorosa, gerando resultados que, muitas vezes, contrariavam a sabedoria convencional. Nunca se furtava a analisar temas complexos, muitos dos quais obscuros antes de sua contribuição.

Ele usava seus modelos de forma rigorosa, gerando resultados que, muitas vezes, contrariavam a sabedoria convencional. Nunca se furtava a analisar temas complexos

Foi nos trabalhos em coautoria com o francês Jean Jacques Laffont (falecido em 2008) que ele começou a alçar voos maiores. A partir desses estudos surgem contribuições de grande relevância para o Brasil: o desenho ótimo de contratos para uma obra de custo final incerto (como a de infraestrutura) e a regulação da indústria com aspectos de monopólio natural (necessidade de larga escala para eficiência).

Tirole e Laffont estudam o problema de um governo que precisa viabilizar uma obra, mas não sabe de antemão o seu custo final, que depende de fatores como a qualidade da firma e o esforço dispendido pelos seus engenheiros e administradores, os quais o governo não consegue observar claramente. Em sua análise, Tirole e Laffont mostram que o contrato entre o governo e a construtora deve consistir num pagamento fixo mais um reembolso parcial do custo de produção. As construtoras mais eficientes escolheriam um contrato com menor reembolso do custo de produção e maior pagamento fixo, enquanto aquelas menos eficientes optariam por um maior reembolso do custo de produção e um menor pagamento fixo.

Ao longo de sua obra, Jean Tirole usou instrumentos da teoria econômica e da teoria dos jogos. Esse arcabouço permitiu lidar com questões complexas, mas também evitar respostas superficiais, tão comuns no debate público no Brasil. Apenas gastar mais os recursos escassos do governo não garante melhores resultados. É importante que a regulação alinhe os incentivos privados com os públicos. O foco é eliminar as distorções existentes no Brasil. Isso deve gerar mais ganhos de eficiência do que se imagina, o que pode viabilizar a volta da confiança e do crescimento através dos ganhos de produtividade. Para isso, é necessário ter um bom arcabouço teórico na política econômica, como o oferecido por Jean Tirole.

*Irineu Carvalho é economista do Itaú Unibanco

Fonte: O Globo, 27/10/2014

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