Jeitinho americano

Ricardo Galuppo

Pense na reação dos críticos de plantão se, por hipótese, a Força Aérea Brasileira voltasse atrás da decisão de adquirir os caças F-18 fabricados pela Boeing depois de declarar a empresa americana vencedora de um processo de licitação público e aberto.

Pense nessa possibilidade. Com toda certeza, não faltaria gente para dizer que o Brasil não é um país sério e que não se pode confiar em nada do que é feito aqui.

Pois foi mais ou menos isso que aconteceu ontem, quando a Força Aérea Americana voltou atrás na decisão de comprar 20 aviões de treinamento Super-Tucano, projetado pela empresa brasileira.

No último dia 30 de dezembro, o governo dos Estados Unidos declarou que pretendia adquirir 20 dos aparelhos brasileiros, num contrato superior a US$ 350 milhões, que poderia ser ampliado mais tarde.

Seria um ótimo negócio para a Embraer e para sua parceira americana Sierra Nevada, que montaria os aviões. Acontece que, logo após o anúncio da vitória brasileira, o fabricante americano Hawker Beechcraft passou a contestar a decisão.

Até que ontem, numa atitude surpreendente, a Força Aérea Americana declarou que havia problemas com a mesma documentação que, há dois meses, tinha possibilitado uma decisão “justa, aberta e transparente”.

Mais importante do que a Embraer perder um negócio que poderia resultar em novos pedidos, é o fato de que a empresa, para conseguir cumprir os prazos de entrega previstos na licitação americana, já havia se preparado para a produção dos aparelhos.

Isso exige a encomenda de peças e a contratação e treinamento de pessoas, além de mais uma série de medidas que, certamente, já tinham começado a ser tomadas pela Embraer e pela Sierra Nevada.

Ou seja: a mudança súbita de planos pode resultar, no final das contas, em prejuízo para as companhias – ainda que a produção não tenha sido deslanchada. Embora a Força Aérea dos Estados Unidos não admita e fale apenas em “problemas com a documentação”, está mais do que nítido que a decisão pode ter uma inspiração protecionista.

Afinal de contas, a indústria americana vive um momento de crise e a necessidade de geração de empregos é intensa (sobretudo num ano eleitoral). Nesse cenário, apelou-se para o tal “jeitinho americano” e procurou-se uma desculpa qualquer para melar a licitação.

Mais uma vez, a comparação: se a decisão tivesse sido tomada pelo Brasil, a esta altura os críticos daqui e de lá estariam deitando e rolando.

Ocorre, porém, que os Estados Unidos não deixam de ter razão ao voltar atrás – e o Brasil precisa se inspirar em exemplos como esse para proteger não apenas sua indústria, mas principalmente os empregos gerados por ela.

Na própria licitação que está em curso para a compra dos novos caças (cujo resultado deve finalmente sair nos próximos meses), o país deveria atribuir um peso ainda maior aos postos de trabalho qualificados que o vencedor estiver disposto a gerar em seu território.

E, também, à transferência de tecnologia e ao índice de nacionalização dos componentes. Não se trata de nacionalismo exagerado. Mas de aplicar à escolha o princípio diplomático da reciprocidade.

Fonte: Brasil Econômico, 29/02/2012

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