Se é verdade que Stálin chegou a perguntar, com desprezo, “Quantos batalhões tem o Papa?”, também é verdade que décadas depois seu sucessor Mikhail Gorbachev admitiria que, sem o Papa, talvez a URSS não tivesse desabado. Um católico pode creditar a derrocada do antigo “Império do Mal” à ação divina; uma pessoa não religiosa, incrédula em relação ao sobrenatural, deverá dar o crédito às idéias. De qualquer modo, Stálin estava errado, e por isso de certo modo também Lênin: não é necessariamente a força física que vai estabelecer um poder, mas a concordância das pessoas em aquiescer a ele. João Paulo II não disparou um único tiro, nem condenou frontalmente o governo da Polônia ou o governo da URSS; sem dizê-lo diretamente, deixou claro que seu país natal era uma nação católica oprimida momentaneamente pelo comunismo, e não uma nação comunista. Igualmente Hayek não sugeriu que a opressão do estatismo – da social-democracia adoecida ao próprio “comunismo” – devesse ser combatida militarmente, ou através de terrorismo, mas com idéias. Os defensores da liberdade podem não gozar, de modo geral, do mesmo prestígio do manto branco de Pedro, ou do anel do pescador; mas desfrutam de algo também imensamente valoroso: a própria verdade. Não cremos que a liberdade de decidir o que fazer com a própria vida seja apenas uma conveniência que pode levar a um conforto material sem dúvida desejável; cremos que a liberdade de decidir o que fazer com a própria vida, o máximo possível livre de um Estado-babá, é verdadeiramente um direito do homem, ser dotado de inteligência e vontade tão livres quanto responsáveis. Hoje militantes de esquerda, nos EUA, falam em empower as pessoas, dar-lhes capacidades de ação. João Paulo II dizia algo bem mais básico: você já é capaz, já é responsável, Deus já te deu tudo; “não tenha medo”. O maior obstáculo à liberdade é interior, e não exterior; uma vez que se perceba que toda a burocracia do mundo não passa de papéis pintados com tinta, em que está indistinta a distinção entre nada e coisa nenhuma, pouco demora para que o pesadelo desapareça. Foi assim no leste europeu e pode ser assim em qualquer lugar. Não tenhamos medo.

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