Merval Pereira

Vai ser um ano interessante, tanto no sentido estrito da palavra quanto no confuciano, de turbulências infindáveis impedindo a tranquilidade. O fato é que a ex-senadora Marina Silva, que já estava sendo dada como abatida ao decolar, e classificada de incompetente por não ter conseguido organizar a tempo seu partido, deu um golpe de jiu-jitsu no governo, aproveitando sua própria força para derrubá-lo.

A indignação por não ter recebido o registro da Rede, fato que atribui a uma manobra governista, deu-lhe forças para buscar o inesperado e voltar ao jogo que parecia já jogado. Não foi por acaso que o marqueteiro oficial, João Santana, apareceu na revista Época , no mesmo sábado em que Marina anunciava seu golpe de mestre, falando uma série de sandices a respeito de anões e soberanas .

Afirmava até mesmo, para sua infelicidade, que, entre os anões, o mais fraco era justamente o governador de Pernambuco, Eduardo Campos. Estavam ali registrados os dois planos em que se dá essa disputa: de um lado, a arrogância dos mais fortes; do outro, a astúcia da sabedoria, o marketing político contra a política com P maiúsculo, que transforma a realidade, enquanto o marketing a distorce para vender uma imagem, que quase nunca corresponde à vida real.

Os dois assumiram a tarefa de traduzir em gestos e atos os anseios das ruas. Para muitos, porém, Marina, com a decisão de participar do jogo político por dentro, deixou de ser reflexo da vontade de mudar o modo de fazer política, e as coligações diversificadas que Campos já fechara com políticos oriundos da direita começam a ser colocadas em xeque pelos marineiros.

Nada indica, também, que a soma dos dois acabará representada nas pesquisas, o que, à primeira vista, poderá desanimar os apoiadores, podendo até mesmo estimular o aumento de votos nulos. A narrativa que Campos e Marina começaram a montar no sábado, e que ficará mais explícita com o passar dos tempos, inclusive na propaganda partidária, é a de que se uniram para acabar com a Velha República e encerrar a polarização entre PT e PSDB.

Passada a euforia, porém, virá a ressaca. A realidade de nosso sistema político-partidário pode atropelar o sonho de representar uma maneira nova de fazer política. Nas redes sociais, já estão registradas as frustrações dos marineiros , que em sua maioria prefeririam que ela estivesse fora a vê-la abraçada a um político tradicional, de um partido tradicional, que tem alianças tradicionais pelo país afora.

Marina, que tem suas raízes na política tradicional, é capaz de lidar melhor com essas contradições do que a maioria de seus seguidores. O choro que se seguiu ao anúncio, na madrugada de Brasília, prossegue na rede, e foram os políticos tradicionais que traduziram para a realidade do país a decisão tomada.

Lembraram aos marineiros frustrados de que a filiação democrática foi a maneira que muitos partidos de esquerda, que não foram para a luta armada, encontraram para participar da política no MDB, contra a ditadura militar.

A entrada de Marina no PSB transformou a Rede num partido clandestino dentro da democracia, numa imagem que ela encontrou para estimular seus seguidores a fazerem guerra de guerrilha contra os que a queriam ver fora da disputa.

Mas essa guerrilha marineira pode levar problemas para a coligação democrática , pois os institutos de pesquisa não deixarão de medir a popularidade de Marina, mesmo ela teoricamente fora da disputa.

A um ano das eleições, o jogo está embaralhado, e caberá aos jogadores se moverem da melhor forma possível pelo campo de batalha redesenhado.

Os petistas, até mesmo Lula, foram apanhados no contrapé, e uma campanha que já estava sendo estruturada para mais uma vez ser o debate entre os governos FH e Lula terá de lidar com o fato novo de que estará sendo oferecida uma alternativa para o futuro do país, e não uma discussão do seu passado.

Fonte: O Globo, 08/10/2013

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