Jogo do perde-perde

Foram expressivas as dimensões dos protestos de rua nas grandes cidades brasileiras neste domingo. São mais um alerta para que o governo Dilma não subestime a indignação popular com a corrupção e a impunidade.

Em vez de uma correção rápida dos fundamentos fiscais para acalmar os mercados, o desentendimento exacerba a crise

Mas os recados das manifestações foram bastante amplos e não se dirigem apenas à presidente, mas também para uma classe política que se perdeu em meio à corrupção e à estagflação. As crises política e econômica se realimentam. Aumentam a insatisfação e a impaciência da população ante a inoperância do establishment. Afinal, nunca se viu tanto dinheiro público desviado por tantos políticos inocentes.

Se a roubalheira na Petrobras é um problema cujas raízes estão no Executivo, “do outro lado da rua”, e não no Legislativo, como sugere o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, quem vai dizer é o Judiciário. Enquanto isso, afundam juntos perante a opinião pública os presidentes da República, do Senado e da Câmara.

Pela incapacidade de reação à crise de duas cabeças, pois piora a economia e piora a situação política. Uma atuação mais construtiva seria a aprovação imediata do ajuste fiscal pelo Congresso seguida de um entendimento com o Executivo em torno da inadiável reforma política. Se a voz das ruas é um basta às nossas degeneradas práticas políticas, torna-se inadiável uma proposta de práticas decentes no trato da coisa pública.

Estamos sentados em uma bomba-relógio. A desarticulação e a imperícia são tamanhas que, antes mesmo de a Fazenda conseguir a aprovação do Congresso para tampar um buraco fiscal em torno de R$ 80 bilhões, um novo buraco de enorme magnitude vai sendo cavado no Banco Central como resultado do anterior represamento da taxa de câmbio e da venda de seguro cambial.

A demora do Congresso na aprovação do pacote proposto por Levy foi também um dos fatores por trás da disparada do dólar. E, quanto mais sobe o dólar, mais cara fica a conta do risco cambial para o Banco Central. A classe política continua, portanto, o jogo do perde-perde.

Em vez de uma correção rápida dos fundamentos fiscais para acalmar os mercados, o desentendimento exacerba a crise. O câmbio dispara, o buraco fiscal aumenta, sobe a inflação e pioram as expectativas. O ronco das ruas sugere que já passou da hora de começar o jogo do ganha-ganha.

Fonte: O Globo, 16/03/2015.

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