O joio e o trigo

Por Zeina Latif e Marcos de Barros Lisboa

A decepção com os resultados da economia tem levado a críticas disseminadas à política econômica que acabam por obscurecer diferenças importantes na gravidade dos problemas a serem enfrentados.
Existe uma compreensível frustração com a condução da política monetária, sobretudo em comparação com a década passada. A menor clareza na comunicação, o maior experimentalismo e a dificuldade com o reconhecimento de equívocos e alterações no diagnóstico colaboram para críticas pontuais ao Banco Central.

Essas críticas, no entanto, devem ser compatíveis com a severidade dos problemas e as circunstâncias. Tendo em vista a atual política econômica e as pressões políticas de um governo que prefere a percepção aos fatos, a gestão monetária tem garantindo uma adequada estabilidade dos preços.

Não se pode comparar os eventuais equívocos da política monetária ao retrocesso institucional promovido pela autoridade fiscal, cujas consequências para os próximos anos serão ainda mais severas do que o desempenho medíocre recente da economia. Como uma família pródiga, acumulamos dívidas com pouca transparência sobre suas implicações futuras.

O caso recente mais exemplar talvez seja do Programa de Sustentação do Investimento (PSI), em que o BNDES reconhece recursos recebidos do Tesouro para a concessão de créditos no ano corrente. O Tesouro, por sua vez, apenas irá assumir que concedeu os recursos em dois anos.

Quando o pagamento das dívidas for devido, diversos estados terão que enfrentar uma situação fiscal bem mais difícil

A União tem concedido aval a novos empréstimos de governos estaduais, frequentemente com carência de 2 a 3 anos para o pagamento da dívida. Os maiores recursos têm sido utilizados para aumentar os gastos correntes. Quando o pagamento das dívidas for devido, diversos estados terão que enfrentar uma situação fiscal bem mais difícil.

Algumas políticas federais implicaram aumento das despesas dos municípios, e muitos têm dificuldades para cumprir as suas obrigações, dificuldades essas que deverão aumentar nos próximos anos.

A política fiscal desorganiza as contas públicas, torna obscura a concessão de benefícios e transfere recursos da sociedade para benefícios privados com pouca transparência sobre seus custos e resultados.

O cumprimento da meta de inflação requer uma adequada gestão das contas públicas. O governo, no entanto, parece preferir mascarar os problemas, ampliando os desafios para a próxima administração.

A política monetária não consegue compensar perfeitamente a política fiscal, cujas consequências se disseminam de forma preocupante pela economia, afetando a composição e o nível da demanda agregada, aumentando as expectativas inflacionárias e prejudicando a expansão da oferta ao desestimular investimentos e ganhos de produtividade. A rápida convergência da inflação para a meta exigiria um grande sacrifício da atividade e do emprego, e talvez com impacto negativo sobre a avaliação de risco do país e contraproducente tendo em vista o restante da política econômica.

Corrigir equívocos de política monetária é relativamente simples. Maior clareza na comunicação sobre objetivos e diagnósticos permitiriam ajustes mais eficazes, colaborando para o ambiente econômico e maior crescimento. Essa correção, no entanto, é insuficiente caso não se enfrentem as distorções e o desequilíbrio fiscal construídos nos últimos sete anos. Aqui, o problema é grave, e a conta a ser paga é opaca por opção do atual governo, comprometendo o crescimento e, simultaneamente, o controle da inflação.

Neste governo, a política monetária destoa pela responsabilidade possível. Avanços na sua gestão podem ser feitos de forma relativamente simples e eficaz em um melhor ambiente macroeconômico. A atual política fiscal, por outro lado, compromete o futuro e ameaça as conquistas, inclusive as sociais, das últimas duas décadas. Vamos concentrar a discussão no essencial.

Fonte: Estado de S.Paulo, 22/6/2014

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