Juros, desemprego e inflação

Pela primeira vez se poderá verificar na prática que taxas equilibram oferta e procura.

Desde que foi adotado o regime de metas para a inflação (1999), somente em 2017 a taxa de inflação dos bens não comerciáveis (serviços) atingiu um nível abaixo da taxa de inflação dos bens comerciáveis e da meta para a inflação. A taxa de inflação trimestral anualizada de serviços está abaixo de 4,0% ao ano e, portanto, abaixo da meta de 4,5% ao ano.

Bens não comerciáveis são bens produzidos e consumidos no mesmo lugar. Por essa razão, seus preços são determinados por oferta e procura interna e são diretamente afetados pela política monetária por meio das variações na taxa de desemprego. Quanto maior a taxa de juros real, maior a taxa de desemprego e menor a taxa de inflação dos serviços, e vice-versa. Por outro lado, os bens comerciáveis são bens produzidos num lugar e consumidos em qualquer lugar. A taxa de inflação destes bens é a taxa de inflação internacional desses bens, multiplicada pela variação da taxa de câmbio (supondo custos de transporte, tarifas, etc., constantes). A política monetária afeta a inflação desses bens em grande parte por meio de seus efeitos sobre a taxa de câmbio e muito menos sobre a relação entre oferta e procura.

Em outros episódios, a taxa de inflação cheia ficou abaixo da meta, mas em geral por causa dos efeitos da valorização do real e de quedas acentuadas nos preços dos alimentos. Os preços dos bens não comerciáveis cresceram sempre acima da taxa de inflação cheia e, em alguns momentos, acima da própria meta, sugerindo que permanecia um quadro de excesso de demanda interna.

Desta forma, pela primeira vez desde a adoção do regime de metas para a inflação, será possível verificar empiricamente qual a taxa de desemprego e, portanto, a taxa de juros real que equilibram oferta e procura na economia brasileira. Em outras palavras, qual a taxa de juros real e qual a taxa de desemprego que não geram pressões inflacionárias. A questão é quão perto estamos deste ponto.

Os movimentos da taxa de desemprego, que é o que em última instância determina a taxa de inflação de serviços, são defasados em relação aos movimentos da taxa de juros. É necessário aproximadamente um ano para que os movimentos da taxa de juros real comecem a afetar a taxa de desemprego. Com o persistente aumento do desemprego, a desinflação de serviços deverá persistir, o que aumenta o espaço para acelerar a queda da taxa de juros nominal, para evitar um aumento da taxa de juros real. Afinal, a meta já foi atingida. Com a queda da taxa de juros real, a taxa de desemprego deverá começar a cair de forma significativa a partir do terceiro trimestre de 2017. Com isso, a desinflação de serviços deverá arrefecer. A queda da taxa de desemprego fará com que a taxa de inflação de serviços estabilize e, eventualmente, retorne para um nível mais próximo da meta.

A queda da taxa de juros real deverá ter um efeito importante sobre o nível de atividade, em razão do elevado grau de endividamento dos agentes econômicos. Com a forte queda da taxa de inflação, teremos um aumento dos salários reais, o que, combinado à liberação das contas inativas do FGTS, deverá reduzir a inadimplência das famílias e as taxas de juros do crédito livre.

Na medida em que a redução da taxa Selic é repassada para as taxas de juros do crédito livre, o potencial de diminuição do endividamento será um importante fator de retomada do consumo e do investimento. De qualquer forma, ainda que a desinflação dos serviços se intensifique, em razão das defasagens entre taxa de juros, desemprego e inflação, todo cuidado é pouco no processo de aceleração da queda dos juros.

Fonte: “O Estado de São Paulo”, 14 de março de 2017.

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