As mais recentes projeções das melhores consultorias econômicas trazem para Lula e Dilma uma boa e uma má notícia.

A boa: 2010 será um período de forte crescimento. É provável que o último ano de Lula seja o seu melhor, com uma expansão do PIB acima dos 6%, como prevê, por exemplo, o competente Departamento de Pesquisas e Estudos (Depec) do Bradesco, em relatório divulgado nesta semana.

A má notícia: esse ritmo de crescimento estará acima da capacidade do país, elevando o déficit das contas externas e, especialmente, pressionando a inflação. Mantidas a política econômica e o regime de metas de inflação, o Banco Central vai aumentar os juros para conter esse excesso. E pior para Dilma: a taxa básica de juros, nesse cenário, deve começar a subir em abril próximo.

No prognóstico do Depec, o BC vai elevar os juros nas três reuniões imediatamente anteriores às eleições, de modo que a taxa básica começa a campanha nos atuais 8,75% ao ano, chegando a 10,25% no dia da votação, em 3 de outubro. Entre o primeiro e o segundo turnos, ainda haveria mais uma talagada.

Há diferenças entre analistas quanto a essas datas, mas a ampla maioria concorda que o BC estará aumentando os juros no período eleitoral.

Isso torna crucial a questão da permanência ou não de Henrique Meirelles na presidência do BC. Com Meirelles, tal é o entendimento, o BC fará o que tiver de ser feito. Ele já subiu os juros em outros momentos críticos.

Mas 2010 será o mais crítico de todos. Além do mais, Lula foi tomado pela soberba e ameaça abandonar a ortodoxia econômica que herdou de FHC e que, mantida, forneceu a base para o Brasil pegar carona na onda de crescimento mundial.

O governo, por exemplo, já está deixando de lado o superávit primário para detonar os gastos.

E então, o que fará Lula? Manterá a autonomia prática do BC, permitindo que este exerça o regime de metas de inflação e eleve os juros, ou vai mandar o banco esquecer essa coisa neoliberal? Não é pequeno o risco para a estabilidade econômica. A última vez que o governo segurou medidas duras para ganhar uma eleição foi em 1987, no pós-cruzado. O PMDB levou quase tudo e, um dia depois da votação, quebrou o país.

Custo Brasil Fernanda é dona de uma academia de ginástica em Niterói. Ano passado, além das fiscalizações de rotina, mensais, recebeu uma extra da Vigilância Sanitária, que deixou 20 exigências.

Por exemplo: as lixeiras tinham de ser daquelas com pedal, obrigatoriamente.

Fernanda fez tudo que lhe pediram, documentou tudo em mais de 50 folhas e foi à repartição. Primeira sensação: as condições de higiene ali não passariam na fiscalização. Primeira surpresa: a funcionária disse que não podia entregar nenhum documento que registrasse o recebimento da papelada.

Apenas entregou um protocolo referente a “cumprimento de exigências”.

Mas, o alvará de funcionamento foi revalidado para 2009, de modo que Fernanda entendeu estar tudo OK. Semana passada, porém, apareceu por lá um fiscal da Vigilância Sanitária, que aplicou uma multa de 890 reais. Fernanda volta à repartição e fica sabendo que no ano passado não havia entregado uma certa “justificativa”. Aquelas 50 folhas! Custo Brasil — 2 Antonio é dono de uma loja de bicicletas no Rio, legal. Dia desses, comentou com um fiscal que havia muito comércio informal de bikes. O fiscal concordou e explicou que, como sua repartição tem poucos funcionários, não há como fazer “blitz volante” para ir atrás dos ilegais.

— E se alguém denunciar? — perguntou Antonio.

— Isso pode — disse o fiscal, dando duas possibilidades: uma denúncia formal, na qual o denunciante se identifica no processo, seu nome podendo ser conhecido pelo denunciado; ou uma denúncia anônima, por telefone (mas, neste caso, explicou o solícito funcionário, serão pelo menos dois anos até o processo chegar às mãos de um fiscal).

Cara leitora, caro leitor: se tiver alguma história dessas, mostrando a dificuldade de ser legal no país, pode mandar para o e-mail abaixo. Obrigado

(O Globo – 03/12/2009)

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