Kennan e Kissinger: Guerra Fria e Novo Rival

George Frost Kennan foi o “inventor” intelectual da Guerra Fria. Diplomata servindo na Embaixada dos EUA em Moscou na segunda metade dos anos 40, tornou-se um dos primeiros sovietólogos. Kennan, sobre quem há duas extraordinárias biografias recentes escritas por John Lukacs e Lee Congdon, previu o que seria o comportamento da União Soviética após a II Guerra Mundial. Tinha amplos conhecimentos sobre a história da Rússia Czarista.

Henry Kissinger, que alternou nas funções de Conselheiro Nacional de Segurança e Secretário de Estado dos EUA nas presidências Nixon e Ford, foi o “inventor” das relações sino-americanas dos anos 70 até os dias atuais. Parte importante da pujança da China de hoje se deve às formulações de Kissinger. Este é o tema central de seu novo livro “On China”, lançado há alguns dias nos EUA. Na obra, além de seu conhecido talento para as relações interpessoais e domínio da teoria geopolítica, Kissinger desfila familiaridade com a história dinástica do dragão vermelho e as matrizes filosóficas confucianas.
Kennan escreveu o legendário “Longo Telegrama” remetido ao Departamento de Estado em 1946. O texto foi também enviado à revista Foreign Affairs. Intitulou-o “As fontes da conduta soviética”, assinando com o curioso pseudônimo “X”. O artigo tornou-se “guia do usuário” para a Guerra Fria.

Kissinger desejava quebrar a espinha-dorsal do comunismo como força geopolítica. Operou para que os EUA oferecessem uma série de benefícios a Pequim, e portanto afastasse a China da esfera de influência de Moscou. Agudizou assim o cisma sino-soviético.

Kennan argumentava que, apesar das substantivas diferenças ideológicas entre as linhagens de czares e a cúpula do Partido Comunista da União Soviética, não haveria grandes distinções quanto ao diagnóstico da “vulnerabilidade básica” do território russo – convite ao expansionismo.

Kissinger entendia que o pragmatismo e a tradição milenar chinesa como potência comercial eram a chave para uma nova prosperidade, ainda que pela via de um capitalismo de estado que rareasse o oxigênio democrático na sociedade chinesa.
Para os czares vermelhos da União Soviética ou para Pedro, o Grande, o ataque seria sempre a melhor defesa. A URSS estaria vocacionada à “exportação” da Revolução de outubro de 1917. Não o internacionalismo proletário preconizado por Trotsky, mas uma projeção externa baseada na própria busca de espaços vitais. Caberia aos EUA “envelopar” a URSS, construindo em torno dela um “cordão sanitário”. Nascia a “doutrina da contenção” que imantou o mundo de 1946 até a queda do Muro de Berlim. A Guerra Fria tornou-se um “jogo de soma zero”, com pesadíssimos sacrifícios para a União Soviética. Exaurida por mais de 4 décadas de confronto entre superpotências, a URSS desmantelou-se em 1992. Kennan venceu.

Kissinger trabalhou para que a China se tornasse membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. Para que obtivesse status de nação mais favorecida nas vendas para os EUA. Para que se tornasse um gigante do comércio mundial. Ainda que com perdas pontuais para a economia dos EUA, a ascensão econômica chinesa remunerou os interesses geoestratégicos dos EUA na Guerra Fria. Kissinger venceu.

O trabalho de Kennan fez com que os EUA superassem um rival no século XX. O de Kissinger contribui para a ascensão de um novo rival dos EUA no século XXI.

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