Lehman Brothers e a Crise Financeira: lições aprendidas?

O dia 14 de setembro de 2008 foi um divisor de águas. A falência do Banco Lehman Brothers, gigante de investimentos em Wall Street, marcou o início da mais dramática crise financeira da história recente dos Estados Unidos. A crise financeira resultou em uma crise econômica. O contexto de crise generalizada levou, por sua vez, à redefinição do papel do governo americano no controle e no gerenciamento da economia.

Crises sistêmicas como a que vivemos são uma oportunidade para se rever as regras vigentes, discutir os erros e, claro, implementar mudanças. Um ano depois, o que foi possível aprender com a quebra do Lehman Brothers e a crise que a sucedeu?

Muitos afirmam que deixar o Lehman falir foi o grande erro que desencadeou a crise. O sistema financeiro está baseado, pois, na confiança dos depositantes e dos investidores. Se um banco for à falência, todos os demais podem ser afetados pelo temor dos seus clientes e pelo aumento da desconfiança nos mercados. O governo, portanto, não deveria permitir que instituições financeiras “de importância sistêmica” quebrem. Caso o Lehman fosse resgatado, afirmam, o pânico dos investidores teria sido controlado e, conseqüentemente, a crise teria tido menor impacto.

Para outros, o resgate de instituições financeiras pelo governo foi uma ação irresponsável. O plano de resgate forneceu incentivos errados quanto à tomada de riscos. Ao garantir o salvamento das instituições que agiram com imprudência, o governo também garantiu que más práticas fossem repetidas no futuro. Os agentes econômicos saberiam que, ao ingressar em negócios de risco, caso suas perdas sejam danosas à economia como um todo, o governo estaria pronto para salvá-los. O governo, portanto, não deve recompensar o “mau comportamento” dos investidores. Deve, sim, limitá-lo e controlá-lo.

A bagunça financeira parece levar à seguinte conclusão: os mercados não podem ser deixados à própria sorte. E mais: as normas atuais não têm sido suficiente para garantir bons resultados. Logo, mais regras são necessárias. Logo, maior controle pelo Estado é necessário.

Essas são respostas fáceis a um problema complexo. Fáceis e erradas. Há duas perguntas que precisam ser respondidas para sabermos quais, afinal, são as lições da crise financeira: o que o governo deve fazer para combater uma crise como essa? E o que é capaz de fazer para evitar uma crise como essa?

Para responder à primeira pergunta, devemos lembrar que as economias precisam de créditos para sobreviver. Os bancos ofertam créditos como um múltiplo do seu patrimônio – uma prática conhecida como “alavancagem”. Se um banco, por exemplo, possui um capital de 100 bilhões disponível, parte desse dinheiro vai ser aplicado em investimentos, ofertado por meio de créditos, de empréstimos e de outras operações financeiras, multiplicando esse valor inicial. Em todo o sistema financeiro, os empréstimos têm de ser garantidos por determinada quantia de capital. A crise no mercado imobiliário deixou os bancos americanos sem o capital necessário para cumprir com suas obrigações correntes ou expandir seus investimentos.

Dessa forma, caso o governo americano optasse por não injetar o dinheiro do plano de resgate na economia, a redução dos créditos seria um múltiplo desse valor. Por exemplo: tomemos por base o pacote de US$ 700 bilhões discutidos ainda no governo Bush. Supondo uma alavancagem (extremamente conservadora) de dez vezes, fala-se de uma retração de créditos na ordem de US$ 7 trilhões, aproximadamente 50% do PIB americano. Não resta dúvida que um retração de créditos nesse porte poderia resultar em uma recessão econômica de grandes proporções.

A montanha de dinheiro que o governo americano colocou nos bancos e nas instituições financeiras não resultou de uma decisão política de estatizar ou nacionalizar. Foi a única escolha disponível. A falta de dinheiro – e, portanto, de crédito para pessoas e empresas – foi tão grande, a ameaça de falências tão arrebatadoras que só uma instituição com recursos quase infinitos poderia oferecer o crédito, as garantias e a confiança no tamanho necessário: o governo. Já houve outras crises financeiras pelo mundo e os governos fizeram isso que se faz hoje: colocar dinheiro público para salvar bancos e, portanto, seus clientes, seus investidores, seus credores e tomadores, e não os banqueiros. Se não fizessem isso, mais desemprego, menos casas construídas, menos alimentos produzidos, menos crescimento, mais pobreza, mais miséria.

Agora, o que um governo pode fazer para evitar que situações como essa se repitam? Mais regras, como quer Obama, é a solução? A resposta que eu ofereço é curta: não.

E por quê? Por que crises como a que presenciamos não podem ser evitadas. As operações no sistema financeiro são operadas sob incerteza e risco, e por meio da alavancagem de recursos de terceiros. O risco é parte da engrenagem do capitalismo e é justamente este fato que torna possível a ocorrência de crises. Os preços dos títulos e ações negociados no mercado financeiro variam de acordo com a expectativa de suas demandas futuras. Os investidores trabalham, portanto, em um sistema de informações imperfeitas. Afirmar com alto grau de certeza se uma operação especulativa deve ser classificada como “boa” ou “má” é saber quais resultados serão obtidos no futuro – um tipo de informação que nenhum gestor público ou mesmo um investidor privado possui com antecedência.

Uma regulamentação eficaz do sistema financeiro, portanto, não é possível porque não há disponibilidade de informações em grau e qualidade desejáveis, seja para eliminar o risco dos investimentos econômicos privados, seja para permitir uma gestão governamental eficiente. No entanto, isso não significa que as autoridades devam ficar de braços cruzados. Nos Estados Unidos e nos demais países, novas regras são necessárias. Mas não para controlar o comportamento dos investidores, e sim para permitir que os bancos e instituições financeiras possam falir sem que isso ocasione uma crise generalizada. O governo não deve tutelar o risco excessivo, aumentando os níveis de dependência dos investidores privados e o Estado. Deve, sim, encontrar os meios para que as falências de grupos financeiros não se revertam em conseqüências mais destrutivas para o próprio sistema.

A lição da quebra do Lehman Brothers deveria ser: as crises são resultado do somatório de decisões políticas, econômicas e empresariais tomadas no passado. Maximizar eficiência e prudência do sistema financeiro não depende somente da vontade das autoridades. Depende de como os indivíduos irão reagir perante as normas e regras implementadas pelos Estados.

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