Levy e a credibilidade que falta ao governo

ricardo galuppo - nova

Embora seja um estranho no ninho petista e tenha assumido o posto sob a desconfiança geral dos companheiros — que viam nele o inimigo neoliberal que enxergam em cada um que ousa reclamar da presidente Dilma Rousseff — o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, firmou-se, na semana passada, como o mais importante e confiável interlocutor da atual administração junto à sociedade. Não por falar o que a plateia deseja ouvir nem por esconder as dificuldades que o Brasil viverá nos próximos meses. Levy transmite confiança justamente por não negar a realidade e pela promessa de colocar em ordem as contas públicas que ficaram de pernas para o ar nos quatro primeiros anos do governo Dilma. Ele dá a esperança de que, passada a confusão, o país voltará a crescer sobre bases mais sólidas do que viveu nos últimos anos.

Levy dá ao governo a credibilidade que tem faltado a Dilma

Na semana passada, o ministro esteve diante de diversos interlocutores que não têm economizado críticas ao governo. Seu primeiro compromisso público, na segunda-feira, foi um almoço promovido pelo Grupo de Líderes Empresariais (Lide), em São Paulo. Diante de uma plateia de mais de 650 gestores de companhias privadas, ele deixou claro que os impostos subirão e que o crédito ficará mais caro.

Esquivou-se na hora de apontar onde e como o governo pretende cortar despesas (o que deixou a plateia com a sensação de que a sociedade pagará sozinha pelas leviandades financeiras da turma da Esplanada). Mesmo sendo portador de notícias desagradáveis, fez a plateia acreditar na bonança prometida para depois da borrasca.

De São Paulo, seguiu para Brasília para uma jornada de reuniões políticas que culminaram no dia seguinte com a promessa do Senado de deixar para depois a investida sobre a questão da dívida dos estados e municípios. O acerto das contas que foi vantajoso no passado tornou-se um estorvo para governadores e prefeitos — e tudo levava a crer que o Congresso trataria da questão a toque de caixa, até para criar um constrangimento a mais para um governo cada vez mais acuado.

A ferro e fogo
Faltam a Levy as características mais marcantes de cada um dos três últimos titulares da Fazenda. Ele não tem a fala fácil e cativante de Pedro Malan, não tem a capacidade de articulação política de Antônio Palocci e muito menos a compulsão por análises otimistas (embora nem sempre verdadeiras) de Guido Mantega.

Mas num governo que trata a ferro e fogo aqueles que não lhe hipotecam simpatia, ele tem sido um elo importante de ligação com a sociedade. Dias atrás, perguntavam-se se ele conseguiria se firmar no cargo diante da hostilidade escancarada do círculo próximo a Dilma.

É possível afirmar que, se Levy cair, a crise aumentará, a precariedade do governo se agravará e a nau já avariada pela tempestade ficará ingovernável. Levy dá ao governo a credibilidade que tem faltado a Dilma. Mesmo que não seja portador de boas notícias, o melhor a fazer é deixa-lo onde está.

Fonte: Hoje em Dia, 05/04/2015.

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