Levyatã

Desarrumação na economia. Confusão na política externa. Nossas recentes apostas ideológicas cobram pesado preço na percepção global sobre o Brasil.

O “Financial Times” classifica nossas agruras como “autoinfligidas”. A “The Economist” nos vê no atoleiro. O “The New York Times” ouve apenas o “sussurro” da voz brasileira no mundo.

Um técnico em finanças está tendo de converter-se num “Levyatã”

Na mídia, na diplomacia ou no mercado, o Brasil é hoje menos respeitado do que há poucos anos. Escapou-nos a narrativa de economia inclusiva e potência em ascensão.

O Brasil perdeu muito da “polifonia” de seu decantado sucesso — contemporâneo ao boom global de commodities e aos dois mandatos de Lula.

Nosso pioneirismo em energias limpas contrasta-se à terra arrasada das usinas de biocombustíveis — levadas a esse quadro pela política de preços da Petrobras. Nossa riqueza de petróleo em águas profundas é desafiada pelo baixo preço internacional da mercadoria — além de um nacionalismo datado e abominável corrupção.

A diplomacia perdeu a bússola. Vergonhosamente escanteada pelo Planalto, foi instrumentalizada a executar um novo terceiro-mundismo que em nada aprimorou nossa corrente de comércio, nossa participação em cadeias produtivas ou nosso “Soft Power” na América Latina ou na África.

Tínhamos até recentemente uma história de êxito a apresentar em diferentes domínios. Muitas bocas para contá-la. Hoje o mundo só está ouvindo uma voz: a do Ministro da Fazenda. O Brasil está Levy-dependente.

Em sua obra-prima, o “Leviatã”, Hobbes descrevia o “estado de natureza” como aquela condição em que não espaço para a indústria, pois o resultado dela é incerto. Tampouco florescem a agricultura, o comércio exterior ou o conhecimento.

A forte imagem hobbesiana comporta, em devidas proporções, semelhanças ao Brasil atual. Todos encontram-se em tenso compasso de espera. E o déficit de talentos e credibilidade no alto escalão governamental empurra o titular da Fazenda para além das atribuições de sua pasta.

Joaquim Levy negocia pessoalmente medidas junto ante o Congresso. Protagoniza o road-show do ajuste fiscal junto a empresários. Argumenta em prol da participação do Brasil na OCDE. Aponta que capitalismo de Estado é incompatível com regimes democráticos.

No limite, foi sua presença à frente da economia brasileira, e não números de nossa contabilidade nacional, que evitaram nos últimos dias a perda do grau de investimento.

Esta sensação de “nunca tantos deveram tanto a tão poucos” não é boa. O único salvador da pátria que deu certo na História foi José do Egito. O filho de Jacó interpretou os sonhos do faraó e executou estratégia de aproveitar período de vacas gordas para criar investimentos necessários à fase de vacas magras. Cenário inverso ao que se descortina para o Brasil.

Encontramo-nos na situação de dependermos da política para ajustarmos a política econômica de modo a lançar as bases de uma nova economia política e de uma política externa reorientada.

Pela força da conjuntura, um técnico em finanças está tendo de converter-se num “Levyatã”.

Fonte: Folha de S.Paulo, 27/03/2015.

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