Paulo Rabello de Castro

Algumas conclusões precedentes à reunião dos chefes de Estado da União Europeia em Bruxelas, a partir deste 28 de junho, podem ser especuladas por quem acompanha de perto a evolução da crise no Velho Continente.

A primeira grande conclusão é a respeito do tamanho e da permanência da Alemanha no contexto europeu. Tanto politicamente como no plano econômico, a pátria de Goethe ficará na União Europeia e nela será ainda maior do que quando entrou no caldeirão da crise. Os números falam por si.

A Alemanha representava 19,6% do PIB europeu (dos 27 países) em 2007. Mesmo sem o efeito de valorização cambial que lhe daria expressiva vantagem, seu PIB ganhou quase mais um ponto percentual até 2011. E a comparação com a Eurozona da moeda comum, de 17 países, mostra uma Alemanha com 27,3% do PIB dos Dezessete.

O comércio externo alemão é majoritariamente regional. A Alemanha está para seus pares quase como São Paulo na federação brasileira, que tem algo como 32% do PIB brasileiro.

A segunda e importante implicação é sobre a “Lex Germana”, uma maneira de expressar – sem ferir suscetibilidades – a realidade futura de quem dará as cartas e estabelecerá as regras de transição para uma Europa unida.

Não será ainda, provavelmente, desta vez e nesta cimeira de Bruxelas, que veremos a adoção das regras induzidas pela disciplina alemã de fazer as coisas acontecerem. Mas a Lex Germana já está no seu tempo de preparo. Merkel tem um caminho longo a percorrer até conseguir aparar todas as resistências internas ao pedágio que terá que pagar e, no âmbito externo, aguardar que todos os restantes esqueletos financeiros saiam dos armários nos países problemáticos.

ainda não aprendemos como devolver tanta grana à sociedade sem jogar fora uma boa metade dela ao longo do caminho de volta

Cada anúncio de socorro incompleto acaba se revelando um desastre contra a liderança alemã. É preferível manter o silêncio, num exercício de frugalidade política, a sair falando bobagens sobre um resgate financeiro-fiscal de altíssima complexidade, cujos meandros ainda estão parcialmente invisíveis.

A declaração do mega-aplicador George Soros, especulando sobre o fracasso da cimeira de Bruxelas, é pura vontade de aparecer na mídia. Que não existe a chamada “bala de prata” (silver bullet) para o impasse europeu no curto prazo, é fato sabido por todos os que acompanham de perto seu desenrolar.

Hoje, é puro jogo de espera e show de ativismo político para a platéia mundial, enquanto se debatem, reservadamente, quem pagará quanto e para quem, assim que todos os prejuízos forem levados à liquidação nos balanços públicos e privados. Por isso, não se pode pedir à Alemanha e à líder Angela Merkel um apressamento do passo até a resolução do impasse financeiro e a criação de uma nova ordem fiscal europeia.

Quem deveria estar apressando o passo é o Brasil. Nosso rolo fiscal e financeiro ficou para trás. Na era Dilma, nosso desafio é achar o caminho de um modelo de tocar a economia de modo mais eficiente. Já sabemos como extrair renda dos particulares para os cofres do governo.

Já fomos mais longe nisso do que qualquer europeu ou americano. Só ainda não aprendemos como devolver tanta grana à sociedade sem jogar fora uma boa metade dela ao longo do caminho de volta.

Fonte: Brasil Econômico, 29/06/2012

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