Liberalismo Popular Brasileiro

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A periferia é liberal. Essa é a conclusão do estudo qualitativo feito pela Fundação Perseu Abramo (do PT) sobre como pensam e no que acreditam os moradores da periferia de São Paulo.

Com evidente desconforto, buscando minar as opiniões dos entrevistados com imagens irônicas e caracterizações depreciativas (eles “sobrevalorizam” o mérito e o mercado, sua noção de público é “distorcida”, sua agenda é pautada pela “mídia hegemônica”), a apresentação expõe o abismo existente entre a visão de mundo da periferia e a ideologia da esquerda nacional, reduto de acadêmicos e militantes.

E no que consiste essa visão de mundo, que o estudo nomeou apropriadamente de “liberalismo popular”?

Em primeiro lugar, um individualismo que rejeita anular as próprias ideias ou interesses em nome de uma classe social, raça ou projeto político.

A pesquisa até que tentou: dividiu os entrevistados no curioso binônimo “brancos” e “negros”, mas as respostas não seguiram nenhuma linha racial.

Em vez do Estado, os entrevistados buscam apoio na família e na religião. Sim, o brasileiro é profundamente religioso; mas não é fanático. Não morreria nem mataria por dogmas e é, via de regra, tolerante. A fé é pessoal e a igreja figura antes como uma instituição de agregação social e espaço de convivência.

Por fim, acreditam no poder do esforço e da iniciativa pessoais. Não se trata do espantalho de meritocracia criado pela esquerda: a crença tola de que o menino de rua, se trabalhar bastante, chegará a CEO.

É a meritocracia em seu sentido legítimo: saber que o esforço pessoal importa; que, com dedicação, é possível melhorar a própria condição de vida e dar aos filhos oportunidades que não teve.

Nada disso é novidade. Bate, por exemplo, com os resultados abrangentes das pesquisas do Data Favela, feitas desde 2013, sobre os moradores de favela de todo o país.

De perfil intensamente social e empreendedor, não esperam cair do céu (ou do Estado) aquilo que querem conquistar aqui na terra.

Segundo os dados de 2015, 40% têm desejo de empreender, contra 23% da população brasileira em geral. Não perdem tempo à caça de culpados por seus sofrimentos; querem um Estado eficiente e espaço para crescer. De resto, Deus ajuda quem corre atrás do seu.

É isso que a esquerda brasileira reluta em aceitar: que o pobre é um agente, e não um “pobre coitado”, vítima passiva das classes dominantes.

Chegamos ao absurdo em que toda uma corrente política vê o apego à família, a fé e a crença em si próprio como obstáculos a serem vencidos para que, daí sim, sua solução para todos os males (um Estado gordo e controlado por ela própria) possa operar sua obra de justiça social redentora.

Assim como troca de pastor ou bispo quando lhe convém, o brasileiro resiste ao credo que militantes e sociólogos de partido tentam lhe empurrar goela abaixo.

Nem pecado original, nem luta de classes. Quer crescer como resultado de sua própria garra. Neste momento, os clérigos de nossa esquerda tradicional enfrentam um dilema claro: ou rever seus dogmas ou, para manter a certeza da própria superioridade moral, aferrar-se às convicções com fanatismo redobrado e contentar-se com o isolamento crescente do mundo real. Em ambos os casos, o Brasil ganha.

Fonte: “Folha de S. Paulo”, 4 de abril de 2017.

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