Quinho mora na rua há tanto tempo que nem mais se lembra da data. Não gosta de falar no assunto. Fica ali, zanzando no corredor da Paulista, entre a Brigadeiro e a Consolação. Seu nome de batismo era Joaquim, mas ficou o apelido familiar. Certa vez me contou, em descuido, que um belo dia acabou-se o dinheiro, tinha perdido a família, teve problemas com a polícia e pronto. Tudo junto foi parar no olho da rua, de onde não mais saiu. Ficou porque gostou.

– Veja, doutor, disse-me numa manhã de sol, sabe que sou feliz?  Sou livre de tudo, durmo onde quero, como bem, que a caridade é larga por aqui, tenho infra-estrutura, banheiro é o mundo todo, água encanada farta no jardim da casa abandonada da Frei Caneca, onde me lavo e lavo a minha roupa. Sou pobre, mas sou limpo. Escovo os dentes e tudo mais. Vê meu cortador de unhas aqui, no chaveiro? Toda semana corto-as.  Deixo barba e bigode porque gosto. Fico elegante, sabe? Eu a aparo sempre e raspo para dar contorno. Sou vaidoso.

Quinho me disse que não tinha problemas maiores exceto, claro, os soldados da polícia e os fiscais da prefeitura. “Esse povo do governo é mau”. Os primeiros querem dar-lhe pontapés quando senta em algum local inconveniente e os segundos ajudá-lo à força, como se precisasse de ajuda. No inverno vêm aos montes, querendo levá-lo para abrigos. “Que abrigo? Tem lugar melhor que a marquise generosa desses prédios? Quando os vejo corro até não poder mais. Bando de covardes, esses fiscais, não respeitam a liberdade dos outros. Eles que se metam naqueles muquifos”.

Tinha a tez morena de um mulato, cabelos escorridos, negros com raros fios brancos. A testa larga dava-lhe um ar digno, sem resquício de calvice. Um vasto bigode encimando um avantajado cavanhaque dava-lhe ar de sabedoria. Olhos vivos, inteligentes. “Doutor, cheguei a fazer dois anos de Direito, antes de cair em desgraça. Sou o morador de rua mais culto por aqui. E o mais informado. Leio os jornais todos os dias, ali na banca. Todos. Sei de tudo que se passa”.

Não resisti e perguntei-lhe:

– Quinho, você viu o caso dos deputados usando passagens aéreas grátis, mais a família, amigos e até amantes?

– Claro, doutor, e fiquei triste, muito triste com essa notícia. Eu não gosto desses agentes pequenos do poder, como polícia e fiscal, paus mandados, mas tenho o maior respeito pelos representantes do povo. Deputado e senador têm que ter liberdade de movimentos e o Brasil é grande, o mundo é grande. Como haveria de ser bom parlamentar se não viajasse para onde bem entendesse? E têm que ter a dignidade de levar os seus. Onde já se viu ir sem a mulher e a amante? Tem deles que levam as duas no mesmo vôo, dizem que até dividem a mesma cama. É mais que um direito, um dever. Parlamentar não pode sair por aí paquerando. Tem mulher e amante, leva.

– Mas, Quinho, é imoral. Eles que paguem as passagens dos seus familiares e agregados, poupando o dinheiro do povo, repliquei indignado.

– Quem disse que o dinheiro é do povo, doutor? Quem disse? É dinheiro do governo. Essa idéia de que o dinheiro é do povo é estúpida. Nunca foi. Se fosse, não estaria eu aqui no olho da rua, pegava o meu, que sou povo também. O dinheiro do governo é dele mesmo, que gasta onde quer. Então os parlamentares têm direito de gastá-lo, afinal eles fazem as leis. Merecem.

– Quinho, isso não é republicano. É roubo. Apropriação indébita, repliquei indignado.

– Doutor, não seja ingênuo. Roubo nada. Não viu que já ajeitaram as coisas e fizeram regulamento legalizando tudo? Quem pode o mais, pode o menos. Ora, se podem aprovar aquele  orçamentão imenso todos os anos, pagando tudo, a riqueza dos banqueiros, os altos salários e as mordomias da magistratura, a conta superfaturada dos fornecedores, os salários imensos da burocracia, podem muito bem reservar para si um pouquinho para as passagens, né? Normal e lógico. Legal. E digo mais: moral. Essa sovinice dos cretinos que pensam que o dinheiro é do povo é que leva a julgamento errado.

Parei para pensar. Quinho tinha endoidado? Evidente que não, seu argumento era perfeito. Quinho conseguira sair do senso comum. Via o óbvio que ninguém via.

– Doutor, todo mundo viaja a custa do governo, juízes, militares, burocratas. Porque não os parlamentares? Eles é que representam a liberdade e têm o poder delegado de aprovar os gastos. Estão exercendo o seu direito, uma prerrogativa do seu poder, completou.

– Até o Tasso Jereissati? Você acha que ele podia alugar jatinho?

– Não, doutor, aí está errado. Esse cearense avacalhou com as coisas. Sabe por que? Porque dá na vista, já tem frota para levar os graúdos para lá e para cá. Parlamentar tem direito a avião de carreira, jatinho á caro e não tem como dar cota para cada um deles, que são muitos. Será que no Ceará os parlamentares andam de jatinho fretado? Duvido. Isso foi uma excrescência, falou sublinhando a ultima palavra, orgulhoso de usá-la.

Não tinha jeito, Quinho estava certo

– Excrescência deve ser punida, doutor. Esse Tasso é mais um desses coronéis do sertão que acham que podem fazer com a nossa República o que fazem nas suas fazendas. Precisa de um corretivo. Acredito que os nossos dignos representantes do povo haverão de fazê-lo, até mesmo movidos pela causa comum de manter seus bilhetes aéreos sem maiores aporrinhações. Por causa de uma ovelha negra não se pode perder todo o rebanho, filosofou.

Nunca perdia em conversar com o Quinho e hoje recebi dele uma grande lição. Um mestre da ciência política, o meu amigo, e os passantes nem desconfiavam. Dei-lhe um trocado maior do que o de costume, mas sei que ele me dera muito mais. Troca injusta, pois fizera-me compreender coisas que quem está sob o ar refrigerado dos escritórios nunca perceberia. Viver na rua parece fazer bem aos olhos e ao cérebro.

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