Eu e meus irmãos tivemos a bênção de ter pais atuantes e responsáveis, que jamais se furtaram do dever de educar, de impor limites, de cobrar responsabilidades e de premiar o êxito. Com o amor puro e incorruptível daqueles que nos geraram, aprendemos que a vida não é um mundo encantado; é feita de dificuldades, de desafios, de provações; nesse caminho pedregoso do viver, é preciso ser forte e seguir em frente; a vitória é fruto do trabalho intenso, da dedicação que aprimora o talento, da vontade de querer dar certo e da sólida intenção de ser alguém que vá além de uma singela mediocridade feliz. Para tanto, é preciso ter foco, fazer escolhas acertadas, enfrentar os adversários sem temor e ter na firmeza do caráter a tranquilidade da paz de espírito.

Concomitantemente aos exemplos de casa, o futebol foi muito útil em nossas vidas. Aliás, sempre fomos loucos por jogar bola; foi o vício de nossa infância; não foram raras as vezes que quebramos objetos da sala de estar; certa feita, um chute desviado de meu irmão atingiu um vaso de casamento de nossos pais; quando minha mãe se deu conta do ocorrido, ela chorou; foi duro, pois é sempre difícil suportar o choro materno. Talvez aí, aprendemos que jamais queríamos fazer nossos pais sofrerem. Apesar disso – preciso ser honesto –, não abandonamos o vício da bola, mas adquirimos a consciência de querer ser bons filhos e buscar atender com afinco os esforços de nossos pais em nos dar uma boa educação.

Desde muito pequeno, todavia, tivemos uma condicionante: futebol só depois de fazer o tema. Em outras palavras, o lazer vinha depois da obrigação, ou seja, para se divertir é preciso fazer a lição de casa. Algo simples, mas que se leva para a vida inteira. O futebol, por seu turno, também fez sua parte didática; ali dentro das quatro linhas, se aprende a trabalhar em grupo; no entanto, às vezes é preciso ser individualista e chamar a responsabilidade para si; se aprende que tem gente que joga com maldade e entra para quebrar, sendo preciso se defender; se fazem muitos amigos e se conhecem alguns inimigos; se triunfa com as vitórias e se aprende com as derrotas; e, no apito final, fica a certeza de que a dedicação e a vontade de querer vencer são mais importantes que o talento preguiçoso.

Hoje, é fácil perceber muita coisa. O difícil é ter olhos, quando ainda não se vê. Daí, o papel fundamental dos pais. A criança, além de amor, precisa de limites. Somente assim se aprende o que é possível e o que não é. E o fato é que é impossível viver sem limites. Já foi dito que ninguém pode tudo e que ninguém pode sempre. Uma hora, em casa ou na rua, a vida ensina. Quando olho para o Brasil atual, fico a pensar que somos uma nação sem pai nem mãe. Afinal, não raro, os limites da lei são tratados como se não existissem. Fico, então, a me indagar: seríamos uma pátria sem leis ou um país sem limites?

Fonte: Zero Hora, 11/01/2012

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1 comment

  1. antonio

    Concordo inteiramente com o artigo. Temos uma geração de pais e mães frouxos e lenientes. Geração que teve a Xuxa como ídolo não poderia dar boa coisa.