No passado, a decepção com a incapacidade dos governantes europeus contra a crise levou os eleitores aos partidos radicais. Isso não pode se repetir agora

A história pode estar se repetindo como tragédia na Europa? O continente europeu permitiu o dilaceramento da democracia em um espaço de 20 anos no século passado. A quebra da bolsa de Nova York em 1929 desencadeou um tsunami que atingiu a Europa com uma onda de falência de empresas, alta taxa de desemprego, forte restrição ao crédito e hiperinflação principalmente na Alemanha e Hungria.

A crise econômica transformou-se em crise política, cujo efeito devastador foi a perda de confiança dos europeus nos governos democráticos. Decepcionados com as frágeis e inócuas medidas dos governantes para frear a inflação, gerar emprego e promover crescimento, os eleitores correram aos braços dos partidos radicais de direita e de esquerda.

Em tempo de crise e desilusão, a assertividade dos radicais seduz o povo e anima os oportunistas. Esse foi o risco não percebido no século passado. Esse é o risco atual.

O cardápio do radicalismo é sempre o mesmo. Na política, a restabelecer a ordem, cerceando a liberdade e o Estado de Direito. Na economia, a receita consiste em adotar medidas protecionistas, restringir do fluxo de capitais e incrementar a intervenção do Estado no mercado. Na área social, a bandeira mais conspícua visa revigorar o espírito nacionalista e combater os imigrantes, estrangeiros e capitalistas.

Tais políticas asseguraram a vitória eleitoral dos nazistas e fascistas, alçando Hitler e Mussolini ao poder. Resultado: cinco anos de guerra, 60 milhões de mortos.

Uma das lições deixadas pela história é que não é possível enfrentar crises institucionais somente com tecnocratas competentes. É preciso liderança política. Hjalmar Schacht (1877-1970), o brilhante financista que se tornou presidente do Banco Central da Alemanha nos anos 1920, recorreu à austeridade para estabilizar o marco, estancar a inflação e reavivar a economia. O sucesso de Schacht, porém, não teve a contrapartida política. A crise de 1929 sepultou os efeitos positivos do plano Schacht, abrindo o caminho para a vitória dos nazistas em 1933.

Hoje, causa perplexidade a ênfase dos atuais líderes europeus em dar soluções técnicas para os problemas de irresponsabilidade fiscal da Grécia. Falta liderança para, em vez de protecionismo, aprofundar a união fiscal, criando mecanismos de punição para as nações que violem os princípios políticos e econômicos da União Europeia.

Não é possível enfrentar crises institucionais somente com tecnocratas competentes. É preciso liderança política

Sem coragem, os países europeus fogem dos sacrifícios que criariam uma Europa robusta e unida, da qual todos se beneficiariam. Os alemães, franceses e gregos prezam as vantagens da unidade europeia, mas não querem abrir mão da soberania fiscal ou dos benefícios insustentáveis do Estado assistencial que vêm drenando os cofres públicos e a competitividade de vários países.

As reformas não caminham porque a vontade de preservar esses privilégios é muito maior do que a determinação para implementar as mudanças necessárias. Assim como na década de 1930, a “política do possível” camufla a falta de coragem.

Outra lição é que crises oferecem oportunidades para engajar a sociedade em mudanças. Grandes líderes aproveitam o senso de urgência para mobilizar a nação. Winston Churchill mobilizou os ingleses, incutindo-lhes o senso de orgulho e de dever de defender o país e a democracia contra a barbárie nazista. As pessoas só aceitam fazer sacrifícios quando compreendem a importância dos valores que defendem e o significado da causa pela qual lutam.

É preciso eliminar obstáculos que impedem o fortalecimento das instituições que garantem a liberdade, a democracia e o Estado de Direito. Quando flertamos com as virtudes do autoritarismo asiático e com o capitalismo de Estado, ou quando passamos a tolerar a relativização de princípios constitucionais que minam a confiança das pessoas nas leis e instituições, colocamos em risco a democracia, a liberdade, a competição, a inovação e o progresso da civilização ocidental.

Repetir os erros dos anos 1930 do século 20 seria desastroso. Será preciso coragem para evitar que a atual crise econômica se transforme em uma perigosa crise política.

Fonte: Folha de S. Paulo, 12/09/2012

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