Livre comércio: além das exportações

Diogo Coelho

Dia 12 de agosto é Dia Internacional da Juventude, data estabelecida pela ONU, e o Instituto Millenium dedica a semana ao tema.

O Imil fomenta a discussão sobre perspectivas para  o jovem hoje através de vídeos, textos no blog e destaca os artigos assinados por estudantes, como este, escrito por Diogo Ramos Coelho, diplomata aos 24 anos e bacharel em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília.

Acompanhe a semana em nosso site.

Livre comércio: além das exportações

A maioria dos brasileiros desfruta dos benefícios do comércio exterior todo dia: dirigimos carros com tecnologia japonesa; falamos em celulares finlandeses; comemos pães feitos com trigo argentino; bebemos chás asiáticos; assistimos novelas em aparelhos de televisão coreanos; crianças se divertem com brinquedos chineses; vestimos roupas com tecido indiano e assim por diante. Esses benefícios fazem parte do nosso cotidiano, mas poucas vezes compõem o discurso político a favor do livre comércio. Quando discutimos comércio exterior, o que é realmente importante?

Para muitos políticos, intelectuais e burocratas, o importante é exportar. O comércio exterior seria bom para o país porque podemos vender lá fora muito do que produzimos aqui dentro. De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, em 2010 as exportações encerraram o ano com valor de US$ 201,9 bilhões e as importações, de US$ 181,6 bilhões – um aumento de 36,6% sobre 2009.

Com bases nesses dados, seria possível elaborar o seguinte discurso: “O Brasil faz parte de uma economia global. Para manter o nosso padrão de vida, temos que aprender a competir num mercado cada vez mais acirrado. É por isso que devemos investir em produtividade da nossa indústria e formar uma parceria estratégica entre governo e empresas”. No entanto, a defesa do livre comércio internacional pela via das exportações é incompleta. E constitui um discurso que pode levar a falsas conclusões.

São as importações, e não as exportações, o propósito do comércio internacional. Em outras palavras, o que um país ganha com o comércio internacional é a capacidade de importar o que deseja. As exportações não são um objetivo em si: a necessidade de exportar é um ônus que um país tem de suportar porque seus fornecedores de importações exigem pagamentos em moeda estrangeira. O comércio internacional não passa de mais uma atividade econômica, sujeita aos mesmos princípios que qualquer outra atividade. E esse tipo de atividade, diferentemente de empresas atuando em mesmo setor, não diz respeito à competição entre os países, mas sim à troca mutuamente benéfica.

Podemos ilustrar esses argumentos com a seguinte história: imaginemos que na década de 1980, enquanto o Brasil mantinha uma reserva de mercado no setor de informática, um empresário brasileiro criou uma máquina capaz de converter soja e madeira nacionais em computadores baratos e de alta qualidade. Ele foi saudado imediatamente como um grande inventor e um herói da indústria nacional. Embora alguns de seus concorrentes internos fossem prejudicados, todos concordaram que a invenção dessa máquina foi algo fantástico e que beneficiou o país. Certo dia, um repórter investigativo descobriu que, no galpão onde estaria a famosa máquina, funcionava, na verdade, um porto. Não havia máquina alguma! O empresário enviava soja e madeira para a Ásia e, com o dinheiro apurado, comprava computadores lá fora. O empresário então foi logo denunciado como um impostor que estava solapando a indústria de informática nacional. A história serve para ilustrar uma ideia simples: o comércio internacional pode e deve ser considerado espécie de produção que transforma exportações em importações.

Diminuir as barreiras comerciais e buscar o acesso a mercados estrangeiros é um objetivo louvável da nossa política externa. Mas o discurso a favor do livre comércio é mais abrangente do que a defesa de nossa capacidade de exportar. Há outros ganhos com o livre comércio que devem ser ressaltados. Podemos listar, a seguir, cinco argumentos para demonstrar por que o livre comércio é bom para o Brasil:

O livre comércio é justo. As trocas econômicas voluntárias são inerentemente justas, beneficiam ambas as partes e alocam recursos escassos de forma mais eficiente do que em um sistema no qual o governo dita e limita as escolhas. É, portanto, um imperativo moral que os brasileiros possam comprar e vender com quem eles escolherem: seja internamente, seja internacionalmente.

O livre comércio não torna o brasileiro mais pobre. O acesso a sapatos, roupas, alimentos, carros e aparelhos eletrônicos (como geladeira e fogão) de melhor qualidade e a preços mais baratos não torna o indivíduo mais pobre. Ao contrário: aumenta o seu bem-estar. O comércio internacional é essencial para a prosperidade, pois significa expandir os mercados aos quais a população brasileira tem acesso.

O livre comércio aumenta a produtividade. A alta produtividade não é importante para que um país possa competir com outro, mas sim por permitir a um país produzir e, portanto, consumir mais. O acesso a outros mercados permite ampliar a concorrência e obriga as empresas brasileiras a se tornarem mais eficientes.

O livre comércio é essencial para o crescimento da economia. A experiência histórica demonstra que países com economias mais abertas e competitivas crescem mais rápido e atingem qualidade de vida mais elevada do que aqueles que permanecem fechados. Quando bens, serviços e capital podem circular livremente entre as fronteiras, os brasileiros podem aproveitar cada vez mais as oportunidades oferecidas nos mercados mundiais. Eles podem comprar bens mais baratos e de melhor qualidade; eles podem vender para os mercados mais promissores; eles podem escolher entre as melhores oportunidades de investimento; e eles podem se inserir em uma rede mundial de demanda e de oferta de serviços, trabalho e capital.

O livre comércio é essencial para o aumento contínuo da prosperidade brasileira. Preços mais baratos permitem às famílias consumir mais, poupar mais e pagar dívidas. O acesso a tecnologias e a insumos mais baratos torna as empresas nacionais mais competitivas. A concorrência incentiva a inovação. A queda geral dos preços significa menor inflação. Inflação baixa permite a redução de juros pelo Banco Central. Juros mais baixos permitem maiores investimentos. E em uma economia aberta e competitiva, a eficiência das empresas permite que elas exportem com mais facilidade.

Em razão desses (e de outros) argumentos, temos que expandir a nossa perspectiva sobre os benefícios do livre comércio. Defender as nossas exportações, buscando acesso a mercados no exterior, é importante. Mas importar também é.

*  As opiniões expressas no texto não representam a opinião do Ministério das Relações Exteriores.

RELACIONADOS

Deixe um comentário