Paulo Guedes (2)

“Esta é a história de um livro. É a história de uma malograda rebelião republicana e anticolonialista em Minas Gerais. É a história de como os conspiradores de Minas se inspiraram na bem-sucedida guerra de independência americana contra a Grã-Bretanha e nos primeiros documentos constitucionais dos Estados Unidos da América. É a história do fracasso da tentativa, por parte dos conspiradores, de acabar com o domínio português no Brasil. É uma história da complexa interação transatlântica entre representantes intelectuais do Brasil, da América do Norte e da Europa entre 1776 e 1792”, registra Kenneth Maxwell na introdução de “O livro de Tiradentes: transmissão atlântica de ideias políticas no século XVIII” (2013).

“Os conspiradores viram a bem-sucedida revolução americana e os textos constitucionais americanos como modelos do que eles queriam realizar no Brasil. Foi essa conexão que enervou as autoridade portuguesas quando essa conspiração foi descoberta em 1789”, prossegue Maxwell. Como relata, pouco antes de ser preso, em 10 de maio de 1789 no Rio de Janeiro, ciente de que estava sendo seguido, Tiradentes entregou a um portador seu exemplar de uma coletânea das leis constitutivas das colônias inglesas confederadas sob a denominação de Estados Unidos da América Setentrional, tendo como anexos os atos de independência da confederação, o recenseamento das 13 colônias e as constituições de seis dessas colônias. Foi esse exemplar, publicado com a ajuda do governo francês e dedicado a promover as experiências constitucionais americanas na Europa, que se tornou conhecido como “O livro de Tiradentes”.

Um tema central, que ainda assombra a economia brasileira contemporânea, era o excesso de impostos. “Os conspiradores de Minas reconheciam a pertinência e a importância da revolução americana porque consideravam os impostos que Portugal lhes cobrava semelhantes aos que os britânicos tentavam impor a suas colônias na América. A quinta parte da produção de ouro era devida à Coroa.” Joaquim Silvério dos Reis, acusado de “doloso, fraudulento e falsificador” pela “Junta da Fazenda” de Minas, “um dos maiores contratadores e também um dos mais endividados, resolveu livrar-se de suas dívidas denunciando a conspiração da qual fora um dos líderes”, fulmina Maxwell.

Fonte: O Globo, 14/04/2014

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