A notícia divulgada semana passada foi alvissareira para milhões de pessoas. A FDA aprovou o Truvada, pílula para ajudar a prevenir o HIV em alguns grupos de risco. Segundo a agência americana, o remédio pode reduzir em até 73% o risco de infecções causadas pelo vírus da Aids. Trata-se de mais uma importante conquista do capitalismo.

O laboratório responsável pela conquista foi o Gilead Sciences, fundado em 1987 na Califórnia. Nestes 25 anos, a empresa apresentou taxas aceleradas de crescimento, sempre em busca do lucro. Graças a isso, seu faturamento ultrapassou US$ 8 bilhões em 2011, permitindo um investimento acima de US$ 1 bilhão em pesquisa e desenvolvimento no ano.

O mercado farmacêutico é bastante competitivo. Várias empresas precisam concorrer para atender melhor as demandas dos consumidores. É este mecanismo de incentivos que garante uma incessante busca por novidades desejadas pelos pacientes de inúmeros tipos de doenças e transtornos.

Claro que há o outro lado da moeda: grandes laboratórios pressionando médicos e fazendo campanhas para estimular o uso excessivo de medicamentos. Qualquer desvio do padrão comportamental virou motivo para diagnósticos precipitados. Vejo estarrecido o dia em que a Anvisa vai nos obrigar a tomar antidepressivos. João Ubaldo Ribeiro escreveu um excelente artigo sobre o tema neste jornal há alguns dias.

Mas compare este risco de abuso com a quantidade de vidas salvas graças aos avanços da medicina, com a redução do sofrimento dos doentes, com os sorrisos que retornam aos lábios idosos quando o Viagra devolve sua virilidade. Tanto alívio e tantas vidas salvas não têm preço. Ou melhor: têm sim, e custam caro!

Eis onde entra o capitalismo. Ainda presos na era medieval, muitos criticam o lucro como motivador das pessoas. Gostariam que a humanidade fosse movida somente pelo altruísmo. São românticos bem-intencionados. De boas intenções, porém, o inferno está cheio.

O mundo seria um lugar muito melhor se tivesse menos hipocrisia e mais laboratórios em busca de lucro

Os países socialistas, que seguiram esta receita, acabaram na miséria e escravidão, praticamente sem nenhuma contribuição relevante à medicina. A despeito da propaganda, o fato é que a medicina cubana é um lixo, principalmente para os pobres (todos aqueles distantes do poder). A União Soviética colocou o Sputnik em órbita, mas faltava papel higiênico e nenhum remédio importante veio deste regime.

Enquanto isso, laboratórios capitalistas em busca do lucro fornecem mais e melhores remédios no mercado. Pfizer, Merck, Eli Lilly, Roche, Sanofi, Novartis, Bayer, Schering-Plough, Astrazeneca e tantos outros, investindo bilhões na busca de medicamentos inovadores. Há quem acenda velas para santos. Eu agradeço a existência destes laboratórios em busca de rentabilidade.

Noam Chomsky, adorado pela esquerda, possui um livro cujo título já expõe a falsa dicotomia tão disseminada entre lucro e vidas humanas. Chama-se “O Lucro ou as Pessoas?”, e é uma crítica ao “neoliberalismo”, este fantasma inexistente na América Latina, mas ao mesmo tempo culpado por todos os males da região.

Chomsky, que já defendeu a candidatura de Heloísa Helena e foi citado com forte empolgação por Hugo Chávez na ONU, é um socialista. Seria o caso de perguntar ao famoso intelectual quantas vidas o regime socialista salvou, já que sabemos quantas ele ceifou: algo na casa dos 100 milhões.

Toda a retórica de nossos “intelectuais” contra o capitalismo não serve para salvar uma única vida. Por outro lado, as dezenas de bilhões de dólares que os laboratórios capitalistas destinam para pesquisas todo ano já salvaram milhões de vidas. E vão continuar salvando mais ainda, se os socialistas não criarem obstáculos demais.

Esta é a parte difícil. O sensacionalismo dos demagogos representa grande ameaça ao progresso. Sempre pregando maiores impostos (o que reduz a quantidade de recursos disponíveis para novos investimentos), ou então a quebra de patentes para reduzir os preços dos medicamentos (o que gera insegurança no setor e também reduz investimentos), a esquerda costuma agir como Maquiavel às avessas: para salvar dez vidas hoje, condena cem à morte amanhã.

No próprio caso da Aids, a esquerda insistiu que era preconceito falar em “grupo de risco”. Como o vírus não liga para a sensibilidade politicamente correta, milhões de pessoas podem ter contraído a doença desnecessariamente, por falta de maior precaução. A praga do politicamente correto corrói até a ciência, que não possui ideologia. O mundo seria um lugar muito melhor se tivesse menos hipocrisia e mais laboratórios em busca de lucro.

Fonte: O Globo, 25/07/2012

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10 comments

  1. fabio nogueira

    Uma pergunta,Rodrigo: Até o momento,quntas vidas a crise mundial está tirando e vai tirar?Quantas pessoas o capitalismo vai deixar na miseria ou excluir?

    Existe um documentário de Michael Moore chamado S.O.S saude que vem mostrando como são tratados os doentes nos Estados Unidos.Sim,aquele país onde quem não tiver um cartão não é atentido.

    Sabe onde vão alguns pacientes americanos procurar ajuda? Em Cuba.Aquele país que é governo pelos “maldosos” dos irmãos Castro.

    Rapz,vai falar de economia que tú em matéria de humanas É UM FRACASSO!!!

  2. Karlos

    Tanto a crise mundial quanto os problemas na área da saúde são consequências do gigantismo do Estado.

    O que o senhor Fábio Nogueira acha dos mais de 100 milhões de assassinatos (russos, ucranianos, cubanos, cambojanos, chineses etc) perpetrados pelos regimes comunistas?

  3. Steve Ling

    Fabio,

    Quantas pessoas nadam de Miami para Cuba?

  4. Luís

    Nossa senhor Karlos (por que não Carlos? Será que você odeia o Brasil, como todos os integrantes do Instituto Millenium?), o senhor exibiu dois textos de autoria do Instituo Mises?

    Meu Deus, que fonte mais independente, de credibilidade e fidedigna.

  5. fabio nogueira

    Suécia ,Noruega,Dinamarca,França e demais países da Europa,adotam o mesmo sistema de saúde que os países socialista fazem,e nem por isso não estão deixando os pacientes morrerem nas portas dos hospitais como acontece no Brasil. Já foram ao Souza Aguiar? Claro que não,pois a maioria de voces inclusive o articulista não vai ter esse trabalho,pois como todos voces está em dia com a boleta.

    Quero ver quando esses planos para todos vão correr quando esses palnos de saude falirem. Tem duas opçoes: Correr para o tio sam ou ficarem esperendo na porta de hospital público caso sejam atentidos.

  6. Steve Ling

    Fábio, você ao Souza Aguiar? O SUS é um sistema de saúde universal e gratuito para todos os brasileiros e estrangeiros legais, ou não. Muitos não acreditam, mas o SUS tem um custo e eu sinceramente gostaria de ter, mas é impossivel, um atendimento do nível do Hospital Albert Einstein. Além do mais existe o corporativismo médico, em que a gestão deve ficar por conta de um médico que não necessariamente tem conhecimento em gestão e custos, a Lei das licitações que atrasam qualquer melhoria tecnologica em anos.

  7. fabio nogueira

    Steve,quantos americanos vão se tratar em Cuba? Detalhe:vão escondido do governo americano.

  8. Lucas

    Senhor Fábio Nogueira,

    creio que tens um grande problema com a verdade. Não me surpreende, isso é típico de comunistas.

    Deveria boicotar a internet, essa criação dos malditos procos capitalistas.

    É risível dizer que o sistema de saúde cubano é bom. É delinquência dizer que é melhor do que o dos EUA.

    O Michal Moore é aquele mentiroso patrocinado por Chávez? Quer dizer que ele leva atores americanos para serem “tratados” em Cuba e você chega a conclusão de que o sistema de saúde cubano é melhor?

  9. fabio nogueira

    Minha resposta é SIM!

    Não só o sistema de saude cubano é o melhor do mundo como também é mais humano.

    Não vou entrar no merito de Michael Moore e patrociando ou não Po r Chaves,por que isso não tem nada haver.

    Sou socialista sim! Não aquele socialismo de Estado que para mim morreu,mas,aquele que é praticado nas favelas e comunidades de maneira geral,algum que por sinal eu,acho que maioria de vcs sequer nunca entraram numa favela.