Lula e a “ex-presidência”

Vou confessar algo que jamais pensei que diria: tenho sido tomado por um sentimento de compaixão sem precedentes pela presidente-eleita Dilma Rousseff.

Não que eu ache que muitos dos questionamentos feitos sobre ela durante a campanha eleitoral não sejam válidos, longe disso, mas assistindo esse espetáculo assustador que tem sido o processo de composição do seu governo, a coisa toda toma ares de filme b quando olho para o lado e vejo um personagem que deveria estar se afastando dos holofotes se comportando como um padrinho que quer aparecer mais do que os noivos no dia do casamento.

Obviamente falo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, padrinho de fato deste casamento entre Dilma e o poder, mas que esqueceu que após levar a noiva ao altar, seu lugar de direito seria algo mais discreto do que este de subir no altar e tentar pregar mais alto que o padre.

O estado de euforia pessoal, de frenesi verbal que o presidente demonstra chega a ser assustador.

Já durante a campanha eleitoral – em que ignorou a legislação e o decoro do cargo durante o dia e pregou que adversário fossem “extirpados” da vida pública durante a noite – o presidente demonstrou um estado de apoteose mental (termo mais do que perfeito criado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso) que inspirava temores, mas passado o pleito (e com a vitória da sua candidata) todos, inclusive eu, pensavam que ele se acalmaria, retornaria a uma postura, digamos, mais “presidencial”, e a transição se desse de forma até monótona, como bem sói a um governo de continuação.

Mas nada disso! O presidente faz questão de indicar e praticamente nomear ministros, de dar palpites em todos os aspectos do futuro governo, de imiscuir-se em detalhes que a lógica e o bom senso recomendam que ele se mantivesse distante.

Espanta até que o neto da presidente-eleita possa ter sido batizado Gabriel sem nenhum tipo de confusão, porque não seria surpresa se o menino se chamasse Luiz Inácio.

Brincadeiras à parte, Lula não só deixou de adotar uma postura mais discreta após a eleição, como pisou no acelerador e tripudiou sobre o candidato derrotado José Serra, provocou a oposição, falou mal do ex-presidente Fernando Henrique pela milionésima vez, pregou o controle da imprensa, foi ao Maranhão fazer pajelança para a família Sarney, fez declarações polêmicas sobre a política externa, resolveu “reconhecer” o Estado Palestino quase no apagar das luzes do seu governo, enfim, fez tudo o que não lembra em nada a atuação de um presidente que se tornará “ex” em menos de um mês.

Onde os pés do presidente Lula pisam, está erguido um palanque. Esse parece ser o princípio básico da discurseira sem fim. Ele chegou a declarar com pesar que precisará “desincorporar” a presidência.

O que acontece é que Lula foi metalúrgico e líder sindical na década de 70, exerceu um mandato de deputado federal durante a Constituinte (e teve tão pouco apreço pela carreira parlamentar que além de nunca mais se candidatar para o Congresso, ainda disse que ali se alojavam “300 picaretas”), depois disso a única coisa que fez foi candidatar-se à presidência.

Perdeu três eleições para o cargo e ganhou duas, sendo o protagonista da única eleição em mais de dez anos em que não pode ser candidato à presidência, elegendo sua criação pessoa, a presidente-eleita Dilma Rousseff.

Talvez seja essa a origem do atual comportamento do presidente: ele não fez e nem sabe fazer outra coisa há décadas além de disputar a presidência da república. Por isso a campanha sem fim, por isso o palanque onipresente, por isso a discurseira infinita, o pavor de virar “ex”.

Com o perdão do trocadilho, é o retirante que não quer e nem sabe como se retirar.

Nota-se que o final do mandato está mexendo profundamente com a sua psique e que a presidente-eleita terá tempos difíceis caso resolva desenvolver qualquer coisa que se aproxime de uma luz própria.

Até as repetidas declarações de Lula, de que deixará uma “herança bendita”, parecem ser feitas sob medida para que ele se coloque como o “Messias” tanto no caso de um sucesso quanto no caso de um fracasso do governo de sua sucessora.

Se a herança é “bendita”, tudo o que der certo é mérito dele e tudo que der errado será equívoco dela.

Ainda estamos em 2010, mas ao que parece Lula adoraria dormir hoje e acordar já nas vésperas da campanha de 2013, quando talvez ele resolva dizer delicadamente (ou não) à sucessora que tirou da cartola:

– Será que a Senhora pode devolver a minha cadeira?

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3 comments

  1. Valeria

    Só elogios. Você escreve muito bem! Parabéns!
    Uma leitura leve e que prende o leitor da primeira a última linha. Lula tornou-se uma pessoa insuportável, muito arrogante, fala muita asneira. A maioria dos brasileiros quer vê-lo pelas costas.

    Sua colega do twitter,
    @valnobre

  2. Renan Vidal

    O presidente Lula fez muito bem em reconhecer o estado palestino. Este é legítimo e necessário para as conversações de paz serem de igual para igual, de estado para estado.

  3. fabio nogueira

    Marcus,o seu problema e demais formadores de opinião nada mais que dor de cotovelo.Voces nuncam esperavam que o Brasil desse certo na mão de um metarlúgico,e deu no que deu.

    Arrumem um candidato com perfil poitico-idéologico e saberão como para o governo do PT.enquanto isso deixe de fazer terrorismo .