Crônica do Quinho

Tomávamos o cafezinho de sempre, depois do almoço, no Conjunto Nacional, na saída para a Paulista. Uma beleza o cafezinho ali, nossa parada obrigatória, o lugar predileto de encontro. Antonio, o advogado grandalhão, o Paulo, economista de banco e eu estávamos sempre por ali. Conversávamos sobre a decisão de Lula de enviar projeto de lei ao Congresso Nacional para tributar os juros da poupança quando chegou o Quinho, vindo da Paulista.

– Onde vai, meu amigo Quinho? Perguntei.

– Estou indo ao Baú do seu Pedro, continuar a leitura do Dom Quixote, respondeu Quinho. Boa tarde para vocês, pessoal.

– Aceita um cafezinho?

– Claro, doutor, é um prazer tomar café. Sem açúcar, por favor.

Paulo não se conteve. Depois da última discussão sobre o neoliberalismo ele ficou despeitado com o Quinho. Perguntou:

– Quinho, o que achou da mexida na caderneta de poupança feita por Lula?

– Ih, Doutor Paulo, esse negócio está longe de ter terminado. Lula não queria fazer nada, bem no estilo dele, para não contrariar o eleitorado e os maiores financiadores de campanha, os banqueiros seus amigos. Mas não teve jeito. E fez a escolha mais irracional possível.

– Como irracional? Os pequenos poupadores foram preservados, só quem tem mais grana vai pagar imposto de renda. Assim a redução esperada na Selic não obrigará a migração automática dos recursos para a caderneta de poupança, disse Paul.

Antonio entrou na conversa. “Paulo, assim acaba a simplicidade desse instrumento, que ganhou credibilidade e financia a construção civil e a infra-estrutura de saneamento em todo o Brasil”.

– Doutor Antonio, falou Quinho, o problema da poupança não foi resolvido, como não foi o nó do processo de intermediação financeira no Brasil. A mexida que precisa ser feita e deverá ser feita é eliminar o piso da taxa de remuneração das aplicações. Não há motivo para que a poupança tenha 6% de juros reais assegurandos, quando os títulos do Tesouro dos EUA estão pagando próximo de zero. Acabou-se o tempo de juros altos. O governo deveria ter criado de vez um instrumento para que os juros da caderneta de poupança sejam flutuantes, respondendo às forças da demanda e da oferta. Mas Lula não teve coragem, pois as eleições estão muito próximas. Aí inventou esse artifício irracional. O Doutor Antonio tem razão, complicaram o que sempre foi simples.

– Reduzir os juros da poupança? Os mais pobres perderiam, repliquei.

– É falso, doutor. A redução dos juros da poupança beneficiaria imediatamente os tomadores de recursos para financiamento da casa própria e os municípios e estados que financiam obras de saneamento com os recursos. Seria algo extraordinariamente bom para a economia do Brasil, dinamizando os investimentos. Esse negócio de estabelecer piso contraria as leis de mercado, não deve existir, completou Quinho.

– Puxa, não pensei assim. Parece muito lógico, repliquei.

– Mas os juros estimulam a poupança, falou Paulo. Se caírem ela cairá.

– Por isso tem que ter livre mercado, replicou Quinho. Quando houver escassez relativa de fundos os juros devem subir, quando houver abundância, cair. É o velho princípio que vem desde Adam Smith  e que espelha a economia natural.

– Quinho está certo, falou Antonio. Esse é o credo liberal, que deve reger uma sociedade livre e aberta. Governo não tem que tabelar nada, nem os juros da caderneta de poupança.

– E como seria isso? Perguntou Paulo.

– Ora, Doutor Paulo, como é no mundo todo. Os tomadores fazem seu preço, os poupadores o seu e aí convergem. O fato é que hoje há abundância de recursos financeiros no mundo, especialmente depois da crise, que levou os bancos centrais a aumentarem a oferta de moeda. Não se sabe quanto tempo vai durar essa fartura, mas o fato é que o custo do dinheiro no mundo desabou, disse Quinho.

– Então a medida do Lula não serve? Perguntei.

– Não, doutor, falou Quinho. Nem chega a ser um paliativo. É um empurrar com a barriga. Antes das eleições novas medidas terão que ser tomadas, pois a taxa Selic tende a cair rápido, mesmo contra a vontade dos banqueiros, esses tubarões que têm sugado os recursos públicos com seus juros elevados.

Paulo fechou a cara, não gostava das críticas do Quinho aos bancos.

– A festa dos banqueiros acabou, doutores, eles que fizeram um verdadeiro assalto aos cofres públicos. Agora terão que trabalhar como banqueiros, financiando a produção e o desenvolvimento, se quiserem ganhar mais. Finalmente o sistema bancário ganhará funcionalidade para a economia. Será bom para todos, até para os banqueiros, completou Quinho.

Acabamos o cafezinho e caminhamos. Quinho seguiu para o Baú do seu Pedro. Deixou-nos sábia lição de economia.

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