Má política

Paulo Areas

Em julho de 2008, quando a taxa básica de juros do governo era muito maior, a empresa onde trabalho financiou a compra de um carro em um dos maiores bancos do país. Em dezembro passado cotamos taxa para comprar outro carro no mesmo banco e, surpresa, mesmo com nossa impecável história de crédito, a taxa de juros era a mesma, apesar de a taxa básica ter caído muito.

É uma situação absurda: as pessoas continuam a pagar aos bancos juros mensais maiores que a inflação anual e, quando há acesso ao crédito, as pequenas e médias empresas pagam juros escorchantes. É evidente que isto muito reduz o crescimento, a geração de empregos, a distribuição de renda e a produtividade.

Esta situação — que só beneficia os maiores bancos — é fruto de má política governamental de décadas, que reduziu o número de bancos e criou um sistema centralizado em que ficam aguardando decisões de quatro comitês de crédito. Em nome da “segurança”, o governo limita a competição, dificultando muito a entrada de bancos estrangeiros e a criação de novos, e implantou regras de controle caríssimas para serem mantidas. O custo de controle inviabiliza bancos menores — o que contribuiu para a quebra de muitos deles — e beneficia os grandes, os únicos capazes de pagar este custo.

Nos EUA e Europa, onde o governo garante maior valor ao aplicador em bancos (na compra de CDBs, etc) e o custo regulatório é pequeno para bancos menores, há milhares de pequenos bancos comerciais que captam dinheiro nas áreas em que estão instalados e decidem ali mesmo sobre a concessão de empréstimos a empresas e moradores. Nos EUA, o valor garantido por aplicador é de até R$ 500 mil, não foram impostas duras regras aos bancos menores (“Basileia” etc), e sete mil pequenos community banks captam e emprestam, localmente.

Capitalismo oligárquico não é eficiente

E como fica a “segurança”? Dificilmente bancos pequenos geram risco sistêmico e a grande crise financeira de 2008 foi provocada por grandes bancos.

O dia em que o Brasil não for mais o paraíso do lucro para poucos grandes bancos, será interessante ver como estes começarão a tomar altos riscos, como os estrangeiros. Não nos esqueçamos que estamos no sistema capitalista, ou seja, empresas e bancos podem quebrar. A “segurança do sistema” deve ser proporcionada até certo ponto, por garantia ao aplicador, e não aos bancos.

E o incrível no Brasil é que, apesar de o acesso a capital no sistema bancário ser caríssimo, o governo não estimula o acesso via o mercado de capitais. Enquanto na Índia há mais de 5 mil empresas abertas em bolsa de valores, aqui um órgão governamental como a CVM inibe a criação de novas bolsas de valores e encarece a emissão, pelas empresas, de dívida de menor volume, através de duras regras em nome de suposta “segurança do sistema”, enquanto os grandes bancos agradecem e o país pouco cresce…

Esse capitalismo oligárquico não é eficiente. Milhões de empresas não têm acesso correto a capital, e o governo pensa que a solução é pedir aos grandes bancos que sejam bonzinhos.

Para o país crescer é fundamental que o governo gere competição privada no mercado bancário e de capitais.

Fonte: O Globo, 30/01/2013

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3 comments

  1. Gustavo

    Recentemente, a CVM encomendou um estudo sobre a abertura de novas bolsas de valores no Brasil e seus impactos. O estudo está disponível no site da CVM (www.cvm.gov.br). Basicamente, o maior entrave hoje diz respeito aos custos associados aos sistemas de liquidação e custódia (que podem ser menores se a BM&FBovespa aceitar compartilhar os serviços da CBLC) e de comunicação entre os sistemas da BM&FBovespa e os das outras bolsas, de modo a permitir negócios entre as plataformas de maneira ágil. Não é a regulação da CVM que inibe a criação de novas bolsas de valores; ao contrário, a regulação atual já prevê a possibilidade de haver mais de uma bolsa de valores. O custo regulatório de emissão de valores mobiliários existe, é verdade, mas não se pode jamais deixar de lado nem minimizar a importância dos princípios de full disclosure e de suitability quando se trata de apelar à poupança popular.

  2. Gilberto

    A coisa esta boa para os setores privilegiados,amigos do rei e da rainha!
    O resto é farinha! Tudo o que o Governo quis foi tomar do poupados para distribuir entre seus chegados!

  3. Luciano Santana

    É o governo não se importa com os micro empresário tanto
    q os números de falência aumenta no pais do capitalismo.