Maçã ou abacaxi?

Estive em Nova York (NY) na semana passada. Clima de crise nos bancos, nos fundos de investimento e nas repartições públicas. Nas ruas, menos exuberância. Quem conhece, nota a falta de lojas tradicionais e se surpreende com os restaurantes sem fila. Mas o consumismo ainda é suficiente para impressionar o visitante. A sensação é que o ajuste global em direção a menos consumo ainda está em formação. O economista-chefe de um grande banco leva o refrigerante que sobrou na mesa e brinca que será seu único bônus no ano. Bem feito! – tem sido a reação do grande público, que tem sofrido com as consequências da crise, sem acreditar ter se beneficiado do período de exuberância. Para o Brasil, o fim desse período de exuberância significa menos de tudo: financiamento externo, influxos de capital (para investimento direto, lançamentos na bolsa, títulos do governo), volume e preço das exportações. A pergunta é: quanto menos?

Nas conversas, a política econômica brasileira sobressai e é bem-vista no exterior. O Banco Central do Brasil, por exemplo, goza de uma reputação superior à maioria dos seus pares no mundo. Nada que isole o Brasil da crise mundial. Mas ajuda a separar o joio do trigo. E, em NY, o joio não são somente a Venezuela, a Argentina e outros “companheiros” que vão precisar lidar com a crise em condições adversas. Os investidores andam ariscos com outras economias também, como a do México e a da Rússia.

Após a depreciação de quase todas as moedas de países emergentes no ano passado, o real se estabilizou este ano num novo patamar, em torno de R$2,30 por dólar (digamos, numa faixa entre R$2,20 e R$2,40). Já o rublo, da Rússia, e o peso mexicano continuaram a se depreciar (20% e 10%, este ano, respectivamente), apesar das seguidas intervenções dos seus bancos centrais. A Rússia já usou mais de US$200 bilhões de suas reservas, mas sua dívida externa é ainda maior que as suas reservas totais (hoje, US$380 bi). A Rússia, assim como o México, perde com a queda de 75% do preço do petróleo, desde o auge em junho do ano passado. O México ainda sofre pela proximidade dos EUA: 80% das suas exportações são direcionados para o vizinho do Norte, e em torno de 2,5% do PIB é a receita das remessas de mexicanos que trabalham nos EUA. Tanto as exportações quanto as remessas de mexicanos estão sendo afetadas pela recessão. É bom lembrar que ambos os países (assim como o Brasil) continuam usufruindo do grau de investimento das agências de classificação de risco (sim, aquelas mesmas agências que perderam a reputação na crise).

O noticiário (O GLOBO, 13/02) revela uma indiscrição de Lula, que, num encontro com empresários, revelou um pedido do presidente do México, Felipe Calderón, de juntos ingressarem numa linha do Fundo Monetário Internacional (FMI). Imagino que a ideia seja a de ter à disposição linhas de financiamento baratas, e sem as condicionalidades habituais do FMI (não haveria necessidade de programa), para ajudar a suavizar o impacto da crise nos fluxos de capital. Pelo noticiário, Lula rejeitou o pedido, provavelmente pelo estigma que o dinheiro associado ao FMI traz. Revela, também, o atual grau de preocupação relativa, México com pressão alta, enquanto o Brasil passa por um período relativamente menos conturbado. Pessoalmente, fico desconfortável (e desconfiado) quando vejo outras economias em dificuldade, e o Brasil recusando dinheiro barato. Até quando os investidores vão (corretamente) diferenciar o Brasil desses outros emergentes?

Visitar hoje em dia a Grande Maçã, como é chamada NY, dá a sensação de mergulhar num abacaxi. Como resolver o problema dos bancos “zumbis” que sobrevivem a duras penas na atual crise? Como voltar a fazer os mercados funcionarem? Quão profundo é o ajuste e quanto tempo vai demorar o mundo para se ajustar a uma riqueza globalmente menor? Dá conforto pelo menos saber que o Brasil não é mais a bola da vez. Foram anos de política econômica consistente (câmbio flutuante, metas de inflação, superávit primário). Pena que seja essa mesma política que os seus adversários querem derrubar a reboque da crise internacional.

(O Globo – 17/02/2009)

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