Terça-feira, 6 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

Macarthismo tropical

O ridículo, no Brasil, parece não ter limites. Observem o seguinte: Fernando Henrique Cardoso foi convidado para participar de um debate com o ex-presidente chileno Ricardo Lagos no Congresso da Latin American Studies Association (Lasa), agora no final de maio, em Nova York.

Fernando Henrique foi convidado na condição de ex-presidente da República e por sua história intelectual. É autor de clássicos da literatura sociológica latino-americana, como “Dependência e desenvolvimento na América Latina”, publicado no final dos anos 1960. Foi um dos principais formuladores intelectuais da oposição brasileira ao regime militar, figura central no processo constituinte de 1986-88, condutor do Plano Real, que estabilizou a economia brasileira, em 1994, presidente da República por oito anos, integrante do The Elders, grupo criado por Nelson Mandela e Jimmy Carter, com foco na democracia global.

Fernando Henrique prossegue com sua atividade intelectual, ainda que não acadêmica, mesmo após seu ingresso no mundo político. Ao sair da Presidência, publicou “A arte da política” e uma série de obras ensaísticas; em 2013 publicou sua coletânea de estudos “Pensadores que inventaram o Brasil”. E, ainda no ano passado, tornou-se o primeiro presidente a publicar, em vida, seus diários da Presidência, uma narrativa essencial para compreender o poder e a vida política brasileira dos anos 1990.

Quem sabe, foi observando essa não propriamente modesta biografia que a Associação de Estudos Latino-Americanos julgou por bem convidar nosso ex-presidente para o debate com seu amigo Ricardo Lagos.

Foi o que bastou para um grupo de professores universitários brasileiros, aparentemente liderados por uma doutoranda em relações internacionais da Universidade de Brasília, movessem uma constrangedora campanha para convencer a diretoria da Lasa a “desconvidar” nosso ex-presidente de seu Congresso.

Nosso patriótico grupo de professores enviou ao presidente da Lasa, professor Gilbert Joseph, e para a coordenadora do Congresso, Pinar Blanco, uma carta – inclusive apoiada por alguns líderes petistas, como o ex-governador gaúcho Tarso Genro – pedindo que os distintos professores “repensem” o convite a Fernando Henrique. O argumento? Fernando Henrique, bem como seu partido, não teria hesitado em pôr em perigo a “paz doméstica” brasileira, bem como nossos “mais básicos mecanismos democráticos, como a Constituição”.

Quando li essa frase, confesso, achei divertido. A Constituição seria um entre outros “mecanismos democráticos”, e estaria – nessa visão – “ameaçada” pelo processo de impeachment. Diante da ameaça, pensei, a carta foi entregue ao endereço errado. O certo seria enviá-la, com urgência, ao Supremo Tribunal Federal. Ou à Polícia Federal, ou quem sabe ao Ministério Público. É o mínimo que se espera de alguém ao descobrir que um partido ou líder político esteja ameaçando a Constituição.

Ok, isso já havia sido feito pelo governo, repetidas vezes, inclusive na semana que antecedeu a votação do impeachment na Câmara, e o STF ofereceu a resposta devida. O processo corre em absoluto respeito a normas constitucionais. Sua equação final, isto é, o julgamento de mérito sobre os eventuais crimes de responsabilidade cometidos pela presidente da República, é de exclusiva responsabilidade do Senado Federal. Não cabe a nenhuma estudante da UnB, nem a um grupo de professores, governistas ou antigovernistas, nem a Fernando Henrique, decidir essa questão. Isso se queremos, de verdade, respeitar nossos “mais básicos mecanismos democráticos, como a Constituição”.

Nos blogs governistas que deram suporte à iniciativa, chamou a atenção o uso da palavra “indigno” para definir Fernando Henrique. O Brasil que foi insistentemente dividido, nos últimos anos, entre “elite” x “povo”, “esquerda” x “direita”, antes e depois de janeiro de 2003, passa agora a ser dividido entre “dignos” e “indignos”. Dignidade, aqui, a virtude própria dos que apoiam o governo e suas posições. Em outro blog, Fernando Henrique é o “traidor”. Desnecessário dizer quem são e o que define os brasileiros leais.

Desnecessário dizer também a que momentos tristes de nossa história recente nos remetem as ideias de censura, supressão do debate, exclusões acadêmicas por motivos de “traição à pátria” e “indignidade”. Tudo isso soa um pouco patético, e possivelmente irrelevante, no Brasil atual. Mas, de todo modo, revelador.

O grotesco da situação obrigou o professor Simon Schwartzman a redigir uma petição ao mesmo presidente da Lasa, solicitando a manutenção do convite a Fernando Henrique. Em poucos dias, a petição foi assinada por mais de 500 intelectuais brasileiros, incluindo nomes como Roberto DaMatta, Boris Fausto e Luiz Carlos Bresser-Pereira. Fico imaginando a cara do professor Gilbert Joseph ao ter de lidar com o assunto. Fosse eu, aproveitaria o ensejo e abriria um painel especial, no Congresso de maio, com o seguinte tema: intolerância intelectual no Brasil contemporâneo.

O Brasil, por óbvio, vive um tempo de crispação e radicalismo político. A intolerância anda na moda. As exclusões dos “diferentes”, no Facebook, o surgimento de “listas” de quem deve ou não ser lido, a profusão de novos militantes digitais, duelando na internet com os colegas do trabalho e amigos da academia. Tipos como Jean Wyllys e Jair Bolsonaro protagonizam cusparadas e elogios a torturadores, no plenário da Câmara Federal.

Tudo isso pode ser lamentável, mas até certo ponto compreensível, em uma grande democracia. Também seria compreensível que uma estudante de pós-graduação e militante governista protestasse contra a presença de um político da oposição em um debate. O que surpreende é que isso seja corroborado por um contingente expressivo de acadêmicos brasileiros. Que também nossa universidade, ou parte dela, termine colonizada pelo “espírito de partido”. Ou por algo mais risível, espécie de lógica “amigo-inimigo” das redes sociais.

Poucas horas depois de receber a carta de Schwartzman, a Lasa, como era de esperar, divulgou um comunicado bastante enfático dizendo que “jamais admitiria desqualificar um acadêmico conceituado com base em sua posição política”. Nossos intelectuais governistas talvez imaginassem estar enviando uma carta à Venezuela, ou quem sabe subestimaram a tradição americana de independência e pluralismo acadêmico. Além disso, é bom saber que vigora, por aquelas bandas, desde 1791, a primeira emenda.

Esqueceram também, quem sabe, que os Estados Unidos ainda guardam a memória triste das listas negras do macarthismo, nos anos 1950. Não seria uma “lista negra de um só”, expedida por um “comitê de intelectuais brasileiros dignos e não traidores da pátria”, que iria fazer uma respeitável associação acadêmica machucar sua biografia.

O que fica disso tudo é a percepção de que algo vai mal na academia brasileira. Talvez em nossa educação, como um todo, visto que no ensino básico o princípio da “exclusão do debate de quem pensa diferente” há muito vem sendo praticado. Fica o alerta para recuperarmos, no Brasil, algo muito simples: a academia como espaço público, espaço de genuína liberdade, vocacionado à convivência dos contrários, que não admite “exclusão”. Que não encontra lugar para a frase mesquinha naquela carta triste: “Retirar o seu nome do debate”.

Por último, há nisso tudo um elemento de mesquinhez. A pior de todas: a mesquinhez irrelevante. Aquela que nem mesmo tem o dom de nos expor ao ridículo, visto que a intolerância parece se tornar nosso novo “normal”, por estes trópicos. Que fique, ao menos, nesta rápida crônica, registrada a sua memória.

Fonte: “Época”, 28 de abril de 2016.

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