Imagine, caro leitor, que um belo dia você chegue no trabalho e seja proibido de exercer a sua atividade por estar magro demais. Ou gordo demais. Imagine um fiscal da prefeitura medindo o seu índice de massa corpórea (IMC) na entrada da empresa e dizendo se você dá ou não um bom exemplo por ter o peso que tem. Se aqui pode parecer ridículo, não é o que está acontecendo na Europa. Na semana de moda de Madri fiscais da prefeitura examinaram todas as modelos para que nenhuma com IMC abaixo de um certo limite desfilasse. A justificativa por trás dessa medida é que as imagens de modelos hiper-magras estimulam jovens a copiarem o tipo físico e que por isso elas tenderiam a apresentar transtornos alimentares, principalmente anorexia. A preocupação de governantes modernos com a saúde da população tem, cada vez mais, ferido as liberdades de escolha dos indivíduos e ameaçado quem não se enquadra em padrões de correção. Um bom exemplo brasileiro foi a tentativa da prefeitura do Rio de Janeiro, há poucos anos, de regulamentar o que poderia ser vendido nas cantinas de escolas públicas e privadas, banindo frituras e comidas excessivamente gordurosas. Por que será que a educação não coercitiva não é mais cogitada? Ao invés de impor às pessoas o padrão de beleza que elas admirarão ou de comida que elas podem escolher, por que não educar para que cada um escolha podendo estar plenamente informado sobre os riscos. A partir daí é responsabilidade de cada um, não do estado. Se as modelos querem se submeter a esse tipo de rigor para trabalhar no mundo da moda é escolha delas. Assim como os fisiculturistas podem ter problemas de saúde pelo excesso de carga e os jogadores de futebol podem ter problemas nas articulações pelo esforço excessivo é um risco que as pessoas envolvidas com o meio fashion correm conscientemente. Algumas, na verdade, até nascem com o biótipo próprio para a atividade e não precisam se esforçar, outras precisam. Mas ainda é uma escolha pessoal que não merece impedi-las de trabalhar. É irônico pensar que, no caso do Estado brasileiro, temos uma máquina obesa cuja alimentação é cada vez menos controlada. Ao invés dos governantes saírem por aí fiscalizando a gordura dos outros, para mais ou para menos; os cidadãos é que, de adipômetros em punho, deveriam impor uma dieta severa ao nosso leviatã gorducho.

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