A construção de cenários é essencial para guiar os agentes sobre os rumos da economia nos próximos anos. É o momento em que definimos tendências, delimitamos incertezas, alertamos sobre o que deve acontecer e unificamos nossa visão sobre o futuro.

Como são variadas as possibilidades, nos cenários procuramos colocar nossa própria opinião a partir de análises consistentes, sem esquecer possíveis alternativas pela ocorrência de imprevistos. Definimos fatores críticos e tentamos nos proteger de intempéries e incertezas, algo incontrolável neste tipo de análise.

No Panorama desta semana, como sempre ao final de cada ano, construímos mais um Cenário para a Economia Brasileira. Este, no entanto, não traz grandes viradas ou novidades. Analisando os últimos movimentos do governo, observamos que poucas mudanças devem acontecer. Como dizem, será um período em que devem predominar as mesmas políticas dos últimos anos. Qualquer mudança poderia indicar fraqueza ou correção de rumo, pelos erros passados, o que afetaria o governo neste ano de eleições.

Isto não apaga (nem encobre) o fato de que vários equívocos foram adotados. Passando pela virada da política econômica, com o abandono do tripé do Real (câmbio flutuante, responsabilidade fiscal e sistema de metas), a invenção da “nova matriz macro”, com câmbio depreciado, juro baixo e inflação no limite superior, intervenções desastradas em variados setores, como petróleo, telefonia e energia elétrica, chegamos ao fim deste ano e início de 2014 preocupados. O momento deveria ser de inflexão (ou de reflexão) sobre a realidade do país. Inflexão porque mudanças se tornam quase inadiáveis, com a agenda de reformas estruturais (como sempre!) se impondo como urgente, além de boa enxugada no setor público; e reflexão, porque o “projeto de poder” dos que se perpetuam há mais de 12 anos não permite que mudanças profundas sejam adotadas, evitando desgastes políticos.

Analisando os últimos movimentos do governo, observamos que poucas mudanças devem acontecer. Como dizem, será um período em que devem predominar as mesmas políticas dos últimos anos. Qualquer mudança poderia indicar fraqueza ou correção de rumo, pelos erros passados, o que afetaria o governo neste ano de eleições

Acreditamos, no entanto, que os vários erros de gestão, ou decisões equivocadas, devem “cobrar seu preço”. O crescimento da economia, na média anual desde 2011, é pífio, em torno de 2,0% a 2,5%, aferrado a um modelo no qual o crédito cresceu muito, estimulando o consumo, e os investimentos pouco; a inflação ameaça, preocupando o represamento dos preços administrados nos últimos meses; a taxa de câmbio deprecia, chegando a R$ 2,35/2,40 ao fim de 2013 e mantendo este “deslizamento” em 2014, dada a política de desmonte do Fed nos EUA e os déficits gêmeos, fiscal e externo, se tornam inevitáveis, dado o modelo adotado.

Em paralelo, enquanto no cenário doméstico temos, como diz o nosso título, “mais do mesmo”, no global se observam mudanças, transições, transformações, enfim, um crescimento maior em 2104, entre 3,0% e 3,5%; os EUA adotando, gradualmente, uma política de desmonte dos estímulos monetários, com crescimento maior (PIB do terceiro trimestre foi de 4,1%); a Zona do Euro saindo de dois anos de recessão, esboçando crescimento em torno de 1% neste ano e no próximo; a China, impávida no seu planejamento central, crescendo 7,5%, e os emergentes melhores do que o Brasil. Estamos na lanterna dentre os BRICS com o real em forte depreciação e a Bovespa, termômetro da nossa economia, dentre as piores bolsas do mundo e no desempenho dos emergentes.

Tracemos então o nosso cenário, a partir de alguns fatores críticos determinantes para a trajetória de 2014:

Inflação reprimida. A inflação em 2013 fecha no mesmo patamar de 2012 (5,8%), mas ainda distante da meta de 4,5%. Para 2014, outros riscos devem surgir, como a liberação dos preços administrativos (em 2013, a alta foi de apenas 0,9%, contra uma trajetória forte dos preços livres, acima de 7%) e a depreciação cambial em curso. Os relatórios de mercado e do Banco Central (Bacen) projetam um reajuste em torno de 4% nos preços administrados em 2014, o que trará algum impacto à inflação. Novos reajustes da gasolina são inadiáveis, assim como no transporte público, saneamento e telefonia, mas o reajuste de energia elétrica deve ser adiado para 2015.

Política Fiscal errática. Difícil acreditar que o governo tenha espaço político para um ajuste fiscal rigoroso neste ano de eleições. Para piorar, as agências de rating estão observando como se comporta a gestão fiscal do governo, com atenção especial para a dívida bruta, em torno de 60% do PIB, absorvendo diretamente o crédito concedido pelo governo aos bancos públicos. Em 2013, o saldo primário deve ficar em torno de 1,6% do PIB. Para 2014, prevemos novas dificuldades, com o governo central obtendo saldo primário de 1,1% e os regionais algo em torno de 0,3%, totalizando 1,4% do PIB. É possível alguma melhoria pelo lado da arrecadação, já que algumas desonerações fiscais devem terminar, mas o ativismo fiscal deve se manter com aumento das despesas correntes, até porque 2014 é ano eleitoral. Somado a isto, temos o crédito do governo ainda em forte expansão, agora mais focado em infraestrutura e menos no consumo. Acreditamos que os estímulos fiscais em 2014 devem ser menores, até pelos alertas das agências de rating de reduzirem as notas de crédito do país, mas o resultado fiscal deve continuar ruim.

Depreciação cambial adicional. Desde a sinalização de Bernanke de que a política de compra de ativos seria alterada em maio de 2013, o câmbio vem deslizando, com algumas tréguas no meio do caminho. Em meados de agosto, quando da adoção da política de “rações diárias”, dia 22/8, chegou a R$ 2,45, e ao final de 2013, deve ficar próximo a R$ 2,35. Sinais do Fed indicam que o ciclo de redução das compras de ativos (tapering), a se iniciar agora em janeiro, com redução de US$ 10 bilhões, deve se manter ao longo das próximas reuniões do Fomc, devendo terminar ao final de 2014. Tudo dependerá de como responderá a economia norte-americana.

Na estratégia cambial do Bacen será mantida a política de vendas diárias de dólares em leilões de swap, gerando hedge cambial para os agentes, com as ofertas se reduzindo de US$ 500 milhões para US$ 200 milhões. Os leilões “de linha” só devem ocorrer caso haja necessidade de liquidez. É opinião do Bacen de que este gradualismo do Fed deve reduzir a volatilidade dos mercados, mas é impossível saber para quanto vai o dólar em 2014. Por ora, estamos mantendo a moeda norte-americana a R$ 2,55 no final do ano.

Aperto monetário dando uma parada em janeiro. É possível que mais um ajuste monetário seja sancionado na reunião do Copom de janeiro, com o juro elevado a 10,5%. Depois um “freio de arrumação” será necessário para que o Bacen faça um balanço de como a economia e a inflação responderão a esta política monetária mais ortodoxa.

Setor externo ainda deteriorado, mas balança comercial melhorando. O setor externo deve começar a melhorar um pouco em 2014, dada a maior demanda externa (mundo crescendo mais). A balança comercial, de um superávit baixo em 2013, entre US$ 100 milhões e US$ 500 milhões, deve registrar um saldo positivo em torno de US$ 6 bilhões em 2014, melhorando um pouco o setor externo. Este, pelo lado do saldo em conta corrente, deve fechar 2013 em torno de US$ 79 bilhões, devendo recuar na margem em 2014, a US$ 78 bilhões (entre 3,4% e 3,6% do PIB). Uma má notícia é a de que o tapering nos EUA deve elevar o custo de captação externa das empresas, dado o encarecimento dostreasuries norte-americanos e a correção das moedas dos emergentes.

Ritmo da economia. A economia brasileira deve manter um crescimento sofrível em 2014, depois de crescer, pelas nossas projeções, em torno de 2,4% em 2013. Uma boa notícia talvez seja a Copa do Mundo no país, estimulando as vendas do comércio (bens duráveis, como televisores) e o turismo, mas um fator negativo será a redução dos dias úteis, desaquecendo alguns segmentos da economia. Outro fator são as concessões, aumentando os investimentos em infraestrutura. No quarto trimestre de 2013, depois da retração de 0,5% no anterior, a melhora da indústria extrativa e a gradual volta da confiança dos agentes, devem elevar o PIB a 0,8%, corroborando para 2,4% no ano. Em 2014, a economia cresce algo em torno de 2,2%.

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