Merval Pereira

O Brasil tende a aderir aos principais países ocidentais e reconhecer o Conselho Nacional de Transição da Líbia como o verdadeiro governante do país, mas só depois que a Liga Árabe e outros países da região como o Egito, a Tunísia e a Autoridade Palestina deram seu “apoio pleno” aos rebeldes líbios.

Mas o porta-voz do Itamaraty ressalvou que o Brasil ainda pretende conversar com seus parceiros do Brics (além do Brasil, a Rússia, a Índia, a China e a África do Sul) para tornar a decisão oficial.

Não foi por acaso, portanto, que um membro do Conselho Nacional de Transição disse que os rebeldes líbios não têm problemas com países ocidentais como Itália, França ou Reino Unido, mas preveem “problemas políticos” com Rússia, China ou Brasil.

Já quando o Conselho de Segurança da ONU aprovou ações contra a Líbia “para defender os civis”, o Brasil se absteve, juntamente com a Rússia e a China.

E, mais adiante, quando da proposta de advertência ao governo da Síria de Bashar Al Assad pela violência com que tentava controlar as manifestações contra sua ditadura, o próprio ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, anunciou a oposição brasileira.

Mais que isso, representantes dos governos do Brasil, da África do Sul e da Índia estiveram com Al Assad, e um comunicado conjunto defendeu a soberania da Síria, apoiando as reformas prometidas pelo governo sírio e condenando a violência “dos dois lados”, argumentação que a diplomacia brasileira costuma utilizar quando não quer condenar apenas as ditaduras que apoia.

Assim como acontecera ainda na gestão de Celso Amorim, quando o Brasil deu para o regime do Irã condições políticas de não ficar isolado quando assumiu uma negociação sobre o programa nuclear ao lado da Turquia, também dessa vez o comunicado conjunto do Brasil, da África do Sul e da Índia serviu para que o ditador sírio mostrasse ao mundo que não estava isolado pelas críticas da ONU e dos principais países ocidentais.

O chanceler Antonio Patriota colocou ainda em questão a ação das Nações Unidas na Líbia, usando os ataques aéreos da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) na Líbia para justificar a “hesitação” que, segundo ele, os membros do Conselho de Segurança estavam experimentando em relação às ações contra a Síria.

O fato de, durante os vários dias que duraram as manifestações no Egito e na Tunísia, até o desfecho com a renúncia dos ditadores, não ter havido nem bandeiras de outros países queimadas nem slogans que não fossem relacionados com as reivindicações nacionais foi considerado como sintomático de que as revoluções populares daqueles países, e agora também na Líbia, expressam os anseios da chamada “rua árabe” de liberdade, de democracia, de melhores condições de vida, de mais justiça social e igualdade de oportunidades.

Na Líbia, as forças de apoio à ditadura de Kadafi demonstraram que, sem o apoio dos Estados Unidos e de outras nações ocidentais, provavelmente ele não correria o risco de ser derrubado, como parece iminente.

É claro que não há garantias de que extremistas não se apossem das “revoluções populares” mais adiante, e sobretudo na Líbia, quando chegar o momento. O Ocidente terá que agir para garantir que a democracia saia vitoriosa.

Mas a excessiva cautela do governo brasileiro parece ainda indicar que o centro de nossa política externa não teve alterações, e não é por receio de que extremistas assumam o poder nesses países que o Brasil teve posições ambíguas, frequentemente favoráveis aos ditadores já instalados.

A nomeação do ex-chanceler Celso Amorim para o Ministério da Defesa esclareceu o que realmente a presidente Dilma achava da política externa brasileira nos oito anos de governo Lula.

A não permanência de Amorim à frente da pasta, apesar dos apelos do presidente Lula e do desejo expresso de Amorim na ocasião, juntamente com declarações da presidente logo depois de eleita, a respeito da defesa dos direitos humanos, deu a impressão de que havia uma percepção diferente por parte dela, mesmo tendo escolhido o segundo de Amorim, o embaixador Antonio Patriota, para o cargo.

A declaração da presidente contra o apedrejamento de mulheres no Irã e a favor dos direitos humanos foi compreendida como mais um passo no rumo contrário ao que se defendia na gestão anterior.

Pois hoje se sabe exatamente o que Dilma pensa de Amorim, que assumiu o Ministério da Defesa “porque já deu mostras de ser um brasileiro muito dedicado ao Brasil”.

Os fatos posteriores mostraram que não havia divergências de fundo sobre a condução da política externa, mas apenas uma diferença de estilo. Talvez a mesma coisa que acontece agora dela em relação ao ex-presidente Lula.

Fonte: O Globo, 23/08/2011

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