Atacar a China pelo déficit dos Estados Unidos é dar um tiro no pé

Lembram-se de quando o governo Dilma justificava as desonerações pontuais como medida para controlar a inflação e gerar empregos? Ou de como o mesmo governo defendia o crédito subsidiado do BNDES como forma de alavancar o investimento? O que dizer dos que insistem haver superávit na Previdência, quando os dados revelam o contrário e o envelhecimento da população é inexorável? E os que não admitem que restrições orçamentárias, quando ignoradas por anos a fio, levam ao descontrole das contas públicas? Tais questionamentos e falácias estão por toda parte. As razões levam a crer que não só está a teoria econômica absolutamente desacreditada, mas que talvez os economistas não tenham conseguido explicar de forma simples ao público geral como determinadas relações devem ser pensadas. A economia anda desacreditada. Mas isso não significa que todas as suas lições devam ser jogadas no lixo, como sugerem alguns desses questionamentos.

Há até pouco tempo, pensava-se que as malditas falácias econômicas, frequentemente repetidas como se sabedoria estabelecida fossem, não tivessem capacidade de contaminar os EUA. Contudo, na terra de Trump, falácias abundam, sobretudo no discurso das autoridades. Na semana passada, Donald Trump assinou dois decretos: o primeiro tem por objetivo “auditar” os déficits externos bilaterais dos EUA; o segundo tem por meta estabelecer formas de remediar as causas identificadas dos déficits bilaterais, isto é, dos déficits externos entre os EUA e cada um de seus parceiros comerciais. As diretrizes foram assinadas às vésperas da visita de Xi Jinping – o maior déficit bilateral dos EUA é com a China, US$ 347 bilhões em 2016. A ideia de que déficits bilaterais são perversos está por toda parte, da carta rascunho sobre as intenções dos EUA na renegociação do Nafta ao artigo recém-publicado no Financial Times por Wilbbur Ross, secretário de Comércio dos EUA.

O artigo começa destacando que os EUA têm as menores barreiras ao comércio, porém o maior déficit comercial do mundo. A partir dessa declaração inicial, o restante do texto de Wilbur Ross discorre sobre práticas abusivas de comércio, manipulação cambial, o problema das empresas estatais que “não se comportam como empresas normais”, acordos de comércio injustos e a “assimetria” das regras e das interpretações das regras da Organização Mundial do Comércio (OMC). Perceberam a linha de raciocínio? Se há déficits comerciais entre os EUA e outros países, a culpa não é dos EUA, mas dos outros países, dos acordos mal elaborados por presidentes anteriores e das instituições que regem o comércio internacional. Eis, portanto, a falácia maldita.

Como sabe qualquer aluno de graduação em economia, déficits, bilaterais ou gerais, são fruto do equilíbrio entre poupança e investimento – ou entre consumo e produção – e da taxa de câmbio. Para uma dada taxa de câmbio, se um país consome mais do que produz, o consumo extra inevitavelmente vazará para fora de suas fronteiras. Ou seja, esse país terá de recorrer às importações para atender aos seus consumidores, o que significa que registrará um déficit comercial. Visto de outro modo, países que consomem mais do que produzem, poupam menos do que investem. Portanto, para financiar o investimento interno precisam tomar recursos emprestados no mercado internacional – o déficit comercial será compensado por um superávit nos fluxos de capital. Os EUA têm déficit elevado com a China, mas, em troca, a China é dos países que mais financiam os EUA, comprando títulos americanos. Atacar a China pelo déficit americano é dar tiro no pé, caso o país desista de financiar parte relevante do investimento nos EUA.

Só há uma maneira de resolver déficits persistentes, e ela nada tem a ver com a renegociação de acordos ou com a retaliação a parceiros. A forma de resolvê-los é mudando as políticas macroeconômicas internas que levam a uma insuficiência de poupança. Qualquer outra medida estará fadada ao fracasso, ou à servir de desculpa para uma guerra comercial severamente prejudicial à economia global.

Fonte: “O Estado de S.Paulo”,  6 de abril de 2017.

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