Marcos Troyjo: “Não há alternativa messiânica para a inserção global do Brasil”

Em fins do século XVI, propagou-se em Portugal uma devoção mística à ideia de que D. Sebastião, morto em 1578, voltaria ao mundo como um novo messias, conduzindo seu país a mais um ciclo de grandes realizações.

No caso das abordagens brasileiras de comércio exterior e inserção internacional, por vezes sentimos a presença desses sebastianismos como veículo messiânico para nossos problemas de baixa participação nas trocas de bens e serviços globais.

Em nossa experiência, essas formulações, abraçadas com apego religioso, incorporaram-se sobretudo em nossos dogmas “multilaterais” e na prevalência das relações político-econômicas “Sul-Sul”.

O Brasil comemorou nos anos 90 o fim da Rodada Uruguai do Gatt (Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio) e a criação da OMC (Organização Mundial do Comércio) como tábuas de salvação para resolver as assimetrias de poderio comercial de diferentes nações.

Apenas o multilateralismo poderia pôr em pé de igualdade os interesses das economias mais maduras contrastados à agenda do Brasil e dos demais integrantes do mundo em desenvolvimento.

Na mesma linha, a crise dos subprime de 2008 e as agruras da Europa mediterrânea em 2011 serviram para reforçar a fé de que é no “Sul” das relações internacionais que se encontra a chave da prosperidade brasileira. Tais eventos constituiriam prova cabal do declínio do “Norte”.

Agora, dado o malogro de nossas apostas internacionais e o esfriamento do mercado interno, nossos dilemas se resolveriam pela adesão a uma dessas novas geometrias de comércio e investimento que se estão delineando pelo mundo, como é o caso da Parceria Transpacífico (TPP) ou do Acordo Mercosul-União Europeia.

Ou seja, nossa crença em soluções mágicas estaria se deslocando dos ícones “multilateralismo” e diplomacia “Sul-Sul” para o “plurilateralismo” ascendente.

É uma baita ingenuidade achar que tratados internacionais de comércio produzam milagres econômicos.

Dito isto, é óbvio que o Brasil ganharia muito se aderisse a modalidades de comércio mais livre com EUA e Europa, como mostra estudo da Amcham-FGV realizado pelos professores Vera Thorstensen e Lucas Ferraz e divulgado na última segunda-feira em São Paulo.

Mais importante, no entanto, é o Brasil realizar as reformas internas no campo da logística, da seguridade social, do trabalho e dos tributos que harmonizem sua capacidade internacional de competir, integrando ou não esses regimes plurilaterais.

E, claro, ter uma estratégia de inserção internacional em que governo e empresas brasileiras se dão as mãos.

No limite, é melhor ter uma estratégia de expansão das exportações e atração de investimentos diretos sem acordos comerciais do que contar com estes, mas não dispor de plano algum para expandir nosso perfil econômico internacional.

Para além da estrutura interna, de que tratei na coluna da semana passada, relaciono aqui quatro pontos cardeais que deveriam compor uma estratégia brasileira, ainda que não proliferem os acordos plurilaterais e nossa eventual participação neles.

Será que temos (governo e iniciativa privada no Brasil) uma política para a “China 2.0”? Esta aumentará cada vez mais seu perfil como fonte de financiamento para o desenvolvimento e investimentos diretos. O Brasil é dos poucos países que oferecem mercado interno de grande escala, acesso privilegiado a commodities agrícolas e minerais de que a China tanto precisa e -se negociarmos acordos- uma boa plataforma para acessar EUA e Europa.

Contamos com uma abordagem estratégica para México e Argentina? Estes são os grandes atores latino-americanos e merecem mais foco individualizado. O México tornou-se o maior exportador mundial de linha branca, televisores e aparelhos de som. É também o país que mais conclui acordos comerciais nos últimos vinte anos. A Argentina encontra-se num jogo de xadrez entre EUA e China. Vamos retomar nosso lugar à mesa? Como? Com um relançamento do Mercosul aproximando-o de sua vocação mais econômica?

Vamos planejar como tirar proveito da ascensão da Índia? E, ainda, de outras estrelas do Sudeste Asiático, como Indonésia e Vietnã? Será que o crescimento econômico desses países não promoverá uma megademanda por nossos produtos alimentares? Estamos ligados nisso?

O que queremos de nossas relações econômicas com os EUA? Não há desperdício maior nas relações internacionais contemporâneas do que o potencial econômico irrealizado entre Brasil e EUA. Saberemos construir, soberana e pragmaticamente, benefícios especiais que podem advir do desejo americano de manter seu status geoeconômico?

Na inserção global do Brasil, não há que substituir uma forma messiânica por outra. Mais vale construir -o que seria inédito- uma estratégia não para o mundo como gostaríamos que ele fosse, mas como o mundo é.

Fonte: Folha de S.Paulo, 11/05/2016.

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