Sabemos que a educação é um fator crítico de sucesso para o bom desempenho na sociedade do conhecimento. Isso vale para indivíduos, empresas e nações. Mas, como na economia, o Brasil é prisioneiro de equívocos intelectuais nessa área. Duas importantes discussões são travadas no momento. A primeira se refere a cotas raciais como portões de entrada para o ensino superior. A segunda, ao ensino obrigatório de filosofia e sociologia no ensino médio. A proposta de cotas universitárias baseada na discriminação de “raças” não resiste à comparação com a proposta de vale-educação baseada em critérios de pobreza. Por um lado, a renda familiar é um critério objetivo. O estudante pobre receberia todo mês um vale que lhe permitiria pagar a universidade de sua escolha. Por outro lado, detectar exatamente em que tonalidade de cor da pele cruzamos a barreira racial é uma temeridade. Invertendo a advertência de Talleyrand a Napoleão, pior que um erro, seria um crime. O erro maior está no próprio conceito de raça. “O assunto ‘diferenças raciais’ é emocionalmente o mais explosivo e politicamente o mais perigoso de todos. A maior parte dos biólogos e antropólogos usa a expressão ‘racial’ apenas frouxamente, significando não mais que aspectos superficiais como altura, cor da pele, cor dos olhos ou capacidade de digerir leite, que diferem geneticamente entre povos de diversas regiões. Isso não significa que raças distintas possam ser definidas com base nesses traços, porque está aberta a possibilidade de que os traços também variem dentro do mesmo grupo étnico ou região”, diz o biólogo americano Edward Wilson, em “Sobre a natureza humana” (1978). De fato, como afirma S. Pinker, em “Tábula rasa” (2002), “as diferenças entre pessoas são pequenas em termos biológicos, e são maiores entre indivíduos de uma mesma ‘raça’ do que entre as diversas ‘raças’. Qualquer ideologia racista que diga que os membros de um grupo étnico são iguais e que um grupo étnico difere fundamentalmente de outro é baseada em falsas hipóteses sobre nossa biologia”. O que leva Wilson a concluir que, “em conseqüência, a maior parte dos cientistas reconhece que é um exercício fútil tentar diferenciar raças humanas”. Se, em nome da discriminação racial, tornou-se possível uma atrocidade tão recente e desumana quanto os prejuízos e preconceitos impostos aos descendentes de escravos no Brasil, os critérios para sua correção deveriam ser o acesso gratuito à educação pela condição objetiva da pobreza (reparação aos prejuízos) e a força da lei contra a discriminação racial (reparação aos preconceitos). Tanto quanto os “novos racistas”, preocupam-me os novos “fazedores de cabeça”. O equívoco de que o marxismo seria uma ciência, como indicado pelo historiador inglês Paul Johnson no livro “Os intelectuais” (1988), inspirou um ensino com deformações cognitivas em todas as matérias e em todas as universidades, principalmente nas disciplinas menos exatas, como economia, filosofia, sociologia e história. Um amigo do saber jamais se oporia à introdução dessas matérias ainda no ensino médio, desde que o conteúdo refletisse os fundamentos culturais e científicos da moderna civilização ocidental. Mas não uma variante bastarda da filosofia marxista, considerada, à luz desses mesmos fundamentos, uma força destrutiva que ameaçou de extinção a própria sociedade aberta. A quantidade de adultos confusos já é suficiente.

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