João Luiz Mauad

Durante a crise de 2008, em meio a uma queda acentuada dos preços de seus produtos e de uma forte retração da demanda internacional, o presidente da Vale do Rio Doce, Roger Agnelli, teve a ousadia de, em nome dos interesses dos acionistas, tomar algumas decisões que contrariavam os interesses políticos do Governo Lula, como a demissão de pessoal, o corte de investimentos e a aquisição de navios no exterior.  Dali em diante, mesmo que de forma dissimulada, sua substituição passou a ser uma questão de honra para os áulicos petistas.

Semana passada, finalmente, a máscara caiu e o ministro Guido Mantega pediu formalmente a cabeça de Agnelli ao comando do Bradesco, maior acionista privado da companhia.  Apesar dos excelentes resultados obtidos pela Vale durante a gestão do executivo, quando o valor de mercado saltou de US$ 9 bi para incríveis US$ 176 bilhões, dificilmente o governo não sairia ganhando com a chantagem, ainda que contra a vontade da maioria dos acionistas e funcionários.

O capitalismo de compadres (talvez “comparsas” fosse uma alcunha mais adequada) que vigora atualmente em terras tupiniquins tornou a maior parte das empresas, notadamente as que atuam em setores fortemente regulados, como o bancário, reféns dos humores de políticos e burocratas (embora, a bem da verdade, elas não tenham muito do que reclamar, já que os benefícios que tiram desta relação incestuosa com o governo não são desprezíveis).  Exemplo claro de que a bajulação e o compadrio muitas vezes chegam às raias da indecência foi a recente demissão de Alexandre Schwartsman do Banco Santander, ocorrida logo depois que o economista teve o atrevimento de afirmar, na cara do presidente da Petrobras, algo que todo mundo já sabia: que as contas do governo são elaboradas através de malabarismos e artifícios contábeis.

Mas voltemos a Agnelli.  Uma fonte do Governo Dilma, ouvida pela Agência Reuters sob a condição de anonimato, resumiu toda a questão de forma simples e direta.  Segundo ela, a Vale “é a maior exportadora do Brasil e não pode se comportar de forma que não esteja de acordo com os interesses nacionais” (seja lá o que isto queira dizer).  A mesma fonte admitiu ainda certo ciúme governamental, proveniente de uma suposta influência da Vale na China, de longe o maior importador de minérios do mundo e grande potência econômica emergente.  Nas suas palavras, “Agnelli tem mais poder de persuasão sobre os chineses do que o embaixador brasileiro ou, até mesmo, a presidente”.

Aquela curta entrevista deixou patente a mentalidade fascistóide reinante nas entranhas do governo petista.  No livro “Fascismo de esquerda”, Jonah Goldberg sustenta com propriedade que muitos esquerdistas estão corretos quando lamentam a cumplicidade entre governo e grandes corporações.  O que eles são totalmente incapazes de compreender, no entanto, é que este é o sistema que eles mesmos abraçaram.  Um sistema no qual o governo consente que os empresários permaneçam à frente dos negócios e,  numa demonstração de cooperação e unidade, até mesmo lhes garante muitos benefícios e privilégios de toda sorte.  Em troca, espera apenas que eles concordem com sua agenda política – e, de preferência, o ajude a implementá-la.

Arranjos como esse não foram raros ao longo da História.  Desde o fascismo de Mussolini, passando pelo Nazismo de Hitler ou o New Deal de Roosevelt, até os dias de hoje, inúmeros governos mundo afora praticaram – e ainda praticam – esse “capitalismo” de Estado.  No nazismo, por exemplo, os empresários provavam a sua lealdade ao Fuher sendo bons “cidadãos corporativos”, exatamente como fazem muitos hoje.  Segundo Goldberg, a maneira de demonstrar lealdade difere significativamente – e o conteúdo moral das diferentes agendas também.  É evidente a diferença entre o que o regime nazista esperava dos “bons empresários alemãos” e o que o petismo espera das nossas lideranças empresariais, como Agnelli, Eike Batista ou os banqueiros do Bradesco e do Santander.  Isto, no entanto, não altera algumas semelhanças fundamentais.

Muito embora existam correntes socialistas radicais dentro do próprio PT que pregam isso abertamente, não há razões para acreditar que o governo atual pretenda reestatizar a Vale.  O que  ele quer, repito, é atrelar a Vale à sua agenda política e social.  “A Responsabilidade social corporativa”, costumam dizer os esquerdistas, “é a pedra angular do desenvolvimento econômico e social sustentável”.  Não é preciso ser nenhum George Orwell para decifrar o que isso quer dizer em “novilíngua”.

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3 comments

  1. RICARDO L BARCELOS

    Se Roosveld era facistoide, então viva o nosso NEW DEAL. E que se danem os acionistas, interessa sim a nação como um todo. Com escolas publicas, saude publica, etc…Estado forte. Empresas não podem jamais, estar acima do estado, pois assim o capitalista, fara valer o direito liberal de possuir ESCRAVOS.

  2. João

    Ricardo, o serviço público melhorou??? Quando o governo se une às grandes empresas, quem perde é o cidadão. A esquerda demoniza o livre mercado, demoniza o capitalismo, mas está aí, vivendo às suas custas! E sobre a escravidão: eu adoraria ouvir essa explicação “genial” sobre a escravidão ser um “direito liberal”. Pelo que eu saiba, antigamente, os estados eram os maiores beneficiários da escravidão.

  3. André Luiz de F. Paranhos

    Ricardo Barcelos, quando você tiver competência para ter sua própria empresa e sentir na pele como o governo supostamente “bonzinho” te prejudica e como alimenta em seus funcionários a idéia de que você patrão é um canalha explorador culpado pelos problemas deles, você certamente mudará de opinião.