Mentes e corações

A advertência é do candidato presidencial José Serra: “Estou convencido de que o governo, assim como as pessoas, precisa ser honrado.” O tucano desaprovou ainda “o silêncio da cumplicidade e da conivência com o malfeito e a roubalheira”. O tema da moralidade na política seria também uma bandeira da eventual candidatura de Ciro Gomes. O oportunismo da aliança PT-PMDB foi denunciado por Ciro como um custo político insuportável para a governabilidade.

Os escândalos serão tema inevitável na campanha. Práticas condenáveis em busca da governabilidade são aparentemente irremovíveis para a classe política. Inaceitáveis para os eleitores, trazem o desencantamento com as instituições. O que só faz subir a popularidade de Lula, jamais percebido como um político tradicional. Seu sucesso é a vitória do homem do povo sobre “os 300 picaretas do Congresso”.

Essa dimensão moral será inevitável na disputa pelos corações na hora do voto. Pois, sempre que o establishment perde a decência, as democracias maduras experimentam os clássicos episódios de “regeneração” pelas urnas.

Já a disputa pelas mentes ocorrerá em outra dimensão. Em apelo extraordinariamente lúcido pela união dos oposicionistas, uma verdadeira carta aberta a Aécio Neves, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso propõe uma aliança entre São Paulo e Minas Gerais para impedir o ressurgimento do “autoritarismo burocrático com poder econômico-financeiro”.

“Por trás das duas candidaturas polares” — ave, Gramsci — “há um embate maior. A tendência que vem marcando os últimos 18 meses do atual governo nos levará a um modelo de sociedade que se baseia na predominância de uma forma de capitalismo na qual governo e algumas grandes corporações se unem sob a tutela de uma burocracia permeada por interesses corporativos e partidários. Especialmente de um partido cujo programa recente se descola da tradição democrática brasileira. Pouco a pouco, o pensamento único esmagará os anseios dos que sustentam uma visão aberta da sociedade. Estará em jogo a própria concepção do que seja a democracia.”

Ainda mais extraordinário do que a sofisticação desse diagnóstico quanto ao possível futuro da sociedade brasileira é não ter percebido o ex-presidente que talvez ainda não tenhamos escapado definitivamente de nosso temível passado. Afinal, até agora afirmava FHC: “Não discutimos ideologia, e sim quem fica com o poder.”

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