O mercado, o estado e as drogas

A ineficiência dos estados em vários setores da sociedade é facilmente comprovada. Mas com relação à política praticada no mundo inteiro (com louváveis exceções), com foco nas drogas dito ilegais, tem produzido um imenso desastre conhecido por todos.

São alarmantes os três resultados práticos do famoso “combate às drogas”:

1. o enriquecimento descomunal dos “capi”
2. o aumento brutal do consumo
3. a morte de milhares de inocentes, policiais e traficantes a cada ano (o total ultrapassa, fácil, às quantidades de mortes de muitas guerras somadas). Só no México, mais de sessenta mil pessoas, pereceram. Por aqui as lutas pelos pontos de venda rendem tristezas todos os dias. Pouco se fala desse total escabroso. Mas quando morre um artista, por overdose, é um escândalo mundial.

Nós, do Ocidente, estamos mais acostumados a presenciar a luta improdutiva das polícias contra o uso da maconha e da cocaína. Os Estados Unidos, imenso consumidor, já tem a heroína disputando clientes. O crack, coisa nova no pedaço, é a parte mais miserável do problema. Mas, em termos de mercado, é apenas a constatação da existência de um nicho financeiramente mais pobre que precisava ser explorado.

Do outro lado do mundo, ópio, heroína e haxixe dominam o pedaço. Mas, em qualquer lugar os policiais têm sido mais vitimados do que produtivos em seus esforços para reduzir a atividade negocial que viabiliza esta indústria universal.

Estimulados pelos retornos financeiros formidáveis, que ultrapassam qualquer outro investimento, os cartéis internacionais se tornaram organizações profissionais. Com disciplina de bala, conseguem planejar, produzir, transportar, vender e controlar seus mercados, cativos e sempre em expansão, com margens de lucro tão generosas que, as tais badaladas “apreensões”, às vezes, planejadas e diversionistas, são apenas “acidentes de trabalho”.

A chegada recente ao mercado dos alucinógenos e psicoativos, apenas agregou mais produtos nas gôndolas do tráfico. Segundo uma pesquisa feita nos Estados Unidos sobre o “Uso de Drogas e a Saúde”, mais de 13 milhões de americanos, com idade entre doze e dezoito anos, já tomaram Ecstasy pelo menos uma vez, e conclui que, 92% deste total, se tornaram consumidores de outras drogas.

A suposta capacidade do Estado em controlar a vida e os costumes dos cidadãos tem se mostrado uma falácia absoluta. A simples decisão de um técnico em estabelecer prazos de validade em produtos (beneficiando os produtores) ou colocar faixa preta (é preconceito?) nos remédios, imaginando proteger as pessoas, resulta, ao contrario do imaginado, em oportunidades de chantagens e falcatruas.

O consumo livre do álcool e do fumo é causa de um número infinitamente maior de mortes comparado aos dados de overdoses. Mas para o Estado e seus funcionários estas mortes são aceitas. As outras não.

A famosa “lei seca” americana foi um exemplo esclarecedor do que significa este ímpeto “protetor” do Estado. Durante os treze anos de sua vigência, entre 1920 e 1933, nunca se bebeu. E milhares morreram. Por beber e por vender.

Precisamos no Brasil enfrentar o problema com visão prática e mais moderna. O uso da maconha para fins medicinais já está se difundindo entre aqueles que imaginam a cura através do seu uso. A legalização seria um primeiro passo para que se entenda a extensão das conseqüências e a identificação de soluções mais inteligentes. A imensa queda de consumo de fumo, presenciada no Brasil nos últimos dez anos, não se deveu à proibições e prisões, mas graças a campanhas inteligentes e esclarecedoras dos males causados pelo seu uso.

Os limites do Estado estão ligados à capacidade da população em reagir. De qualquer espécie ou forma. E só um povo educado será capaz de fixar barreiras a quem quer reduzir as liberdades individuais. Esperemos com fé.

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