Terça-feira, 6 de dezembro de 2016
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Metamorfose do comércio global

O comércio global está atravessando profundas mudanças de forma e conteúdo.

Há um quarto de século, nos estertores da Guerra Fria, as trocas internacionais pareciam indicar uma globalização profunda das cadeias produtivas, a prevalência das manufaturas como principal setor do comércio e a regionalização de acordos de livre comércio como paradigma.

Todos esses pontos de referência passam por marcada transição. Num primeiro olhar, a consolidação da China como “fábrica do mundo” fez com que crescentemente empresas chinesas abocanhassem fatias cada vez maiores do processo de produção.

Nos anos 1990, por exemplo, já era comum a China atuar como “montadora” de produtos finais cujos componentes eram adquiridos de outros países.

Nessa fase, era necessário que as plantas industriais chinesas importassem grande parte daquilo que combinariam —a um custo final baixo— antes de ser levado aos mercados mundiais. Assim, a pujante industrialização chinesa das últimas três décadas se fez de mãos dadas com o aumento dos termos do comércio global.

Hoje, no entanto, capitalizadas por anos de boa performance que renderam à China como um todo a acumulação de robustos superávits comerciais, as empresas chinesas foram progressivamente comprando as companhias responsáveis por fases intermediárias de produção.

Com base nesse quadro, que emoldura a China na condição de segunda maior economia do mundo, a produção —e portanto também o comércio— estão mais “desglobalizados”. É como se o mundo estivesse “menos plano” e “mais chinês”.

Essa tendência de desglobalização do comércio também seria verificada nos EUA e Europa, que, em contraposição à crise de 2008, tornaram-se mais protecionistas e incentivadores do “conteúdo local”.

Por essa lógica, se houve perda de eficiência em empresas norte-americanas ou europeias de atuação global, tais “deseconomias” seriam compensadas pela preservação de empregos locais e geração de impostos nas jurisdições nacionais de cada companhia. O resultado recente disso tudo é uma queda no valor do volume negociado globalmente aos níveis de 2009.

Ao lado dessa desglobalização, parece também que o comércio global também crescentemente se “desmaterializa”. Nada aumenta tanto nas trocas internacionais como os bens intangíveis do comércio eletrônico, de que despontam projetos em 3D, computação em nuvem, modelagem e design, enfim, os setores de ponta da chamada “Quarta Revolução Industrial”.

E é também nessa direção que parece indicar o novo formato dos acordos de liberalização comercial. Se nos anos 1990 eles obedeciam a critérios regionais —ou à ambição da liberalização universal orquestrada pela nascente Organização Mundial do Comércio (OMC) —agora eles parecem sobretudo privilegiar “valores compartilhados” ou “setores de interesse comum”. São portanto mais seletivos, e menos “globais”.

De fato, há uma diminuição do papel tanto do multilateralismo como da regionalização nas geometrias de comércio.

A Rodada Doha da OMC está inerte e a organização liderada pelo brasileiro Roberto Azevêdo busca sobreviver mostrando alguma relevância no desenho de molduras como o Acordo de Facilitação de Comércio (TFA, na sigla inglês), que visa a simplificar e generalizar procedimentos alfandegários. Isso, contudo, é pouco ante o que se acreditava como potencial liberalizante da OMC.

Já no que toca à regionalização, em 1992 o mundo observava o aparecimento do Nafta (Acordo de Livre Comércio da América do Norte, envolvendo portanto México, EUA e Canadá), o nosso Mercosul e mesmo o aprofundamento da integração na Europa mediante a adoção do Tratado de Maastricht.

Hoje, a vizinhança geoeconômica, longe de ser determinante, é apenas um dos fatores a levar em consideração. A Parceria Transpacífica (TPP, na sigla em inglês) abarca duas das três maiores economias do mundo (EUA e Japão) e mais uma dezena de sócios de três continentes (Ásia, Oceania e Américas).

Eles operarão sob a égide de regras de comércio e investimento comuns – e todas com clara implicação em formas compartilhadas de abordar temas como meio ambiente, regras trabalhistas, propriedade intelectual, etc.

O ITA (Acordo sobre Tecnologias da Informação) não se orienta por qualquer critério geográfico, e conta com adesão de dezenas de países que em conjunto representam 98% do comércio global desse setor.

A tendência à desglobalização resultará portanto determinante dos fluxos de comércio nos próximos anos? Não necessariamente.

O aumento dos custos de produção na China está levando a novas correntes de comércio em que países de mão de obra ou insumos mais baratos acabam por funcionar como fornecedores para a China. Isso vale para vizinhos asiáticos como Vietnã ou parceiros distantes em outros continentes como a África do Sul ou o Peru.

A ascensão de Índia e Indonésia também convida a novas ondas globalizantes, seja em seu papel expandido como hubs industriais, seja como fontes de formação de demanda por commodities minerais e agrícolas oriundas de África ou América Latina.

O Brasil teve grandes dificuldades —e pouco interesse— em se adaptar ao paradigma anterior do comércio global.

Extraiu pouco de seu apego à negociação multilateral. Não tirou proveito do fortalecimento das redes globais de produção industrial. Acabou por permitir que o Mercosul se afastasse de seus objetivos comerciais e se remodelasse como plataforma político-ideológica.

Como consequência, desindustralizou-se e “reprimarizou” seu perfil exportador, respondendo sobretudo à demanda externa de países como a China.

Terá o Brasil agora a visão necessária para moldar-se aos novos riscos e oportunidades que emergem no horizonte?

Fonte: Folha de S.Paulo, 09/03/2016.

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