Imagine que você seja assaltado hoje, na rua. Mas imagine que o ladrão leve apenas R$ 0.10. No dia seguinte, você encontra novamente o mesmo sujeito que, novamente, leva mais R$ 0.10. Você pensa consigo mesmo que não vale a pena brigar. A quantia lhe parece bem irrisória. No dia seguinte, o fenômeno se repete e você já nem liga tanto. E por aí vai. No final do mês, você ficou R$ 3.00 mais pobre. Imagine que você não foi o único: todos da cidade tiveram exatamente o mesmo problema. Se sua cidade tem uns 30 mil habitantes, então o ladrão está com R$ 90 mil no bolso. Guardadas as devidas proporções, este é o exemplo mais interessante que conheço para explicar a tributação. A diferença é que não é um ladrão que faz isto, e sim um governo. Veja bem, para adaptar o exemplo acima, digamos, imagine que, no final do mês, o ladrão faça um sorteio e dê R$ 4.00 para uns 20 mil habitantes. Não há muita dúvida que o ladrão ficará bem popular entre 2/3 da população. Se houvesse uma eleição, ele teria chances bem reais de se eleger. O que acontece, leitor, é que a maioria da população conseguiu um benefício líquido, embora tenha arcado com o mesmo custo de todos. Em outras palavras, o ladrão concentrou benefícios e dispersou custos. Esta pequena “fábula” é interessante porque nos mostra como incentivos influenciam as ações das pessoas. Se você tira recursos de alguém em quantidades ínfimas, é possível que a pessoa nem se preocupe tanto. E se você tem o poder de distribuir recursos, ainda pode ganhar um mandato político. Nesta campanha eleitoral vi notícias as mais diversas que afirmavam que muitos eleitores não se importavam com a “ética” na política. Um rápido exame na lista dos bem votados mostra sinais de que esta pode ser uma afirmação correta. Não há preocupação com o “tamanho” do saque do ladrão. Há apenas a percepção de que posso estar entre os 20 mil sortudos. Aceito o ladrão porque não percebo o custo dos impostos e porque torço para estar entre os sorteados. Não penso mais em eficiência econômica. Para que atender o consumidor se posso atender os desejos de moral e legalidade do sábio legislador? Ou aos anseios tributários do amigo fiscal? Dependendo, quem sabe, ao invés de me defender do bandido, entro em acordo com ele: “leve R$ 0.10 de meu colega ali que eu lhe pago um jantar”. Ética? Que ética? “Temos de ser pragmáticos”, dirá uma voz muito comum em nosso dia-a-dia. Quem nunca ouviu isto que atire a primeira pedra (ou centavo…). Pragmatismo não é uma boa solução. Por exemplo, paga-se ao flanelinha porque, diz-se, é mais caro cobrar dos políticos a segurança pública prometida. Se tenho a opção de não pagar impostos e apenas pagar ao flanelinha por seus serviços, ok, eu concordo. Mas pagar ao flanelinha não me livra dos impostos. E aí? Sou duplamente extorquido? São dois ladrões agora. Um, que não foi sorteado, agora me cobra para vigiar meu carro. O outro, que me levou R$ 3.00 no mês, não me dá nada em troca do meu dinheiro. Pudera, fui assaltado. Quer diminuir a “vitimização”? Comece a cobrar dos políticos. Estes, pelo menos, têm endereços. O flanelinha, o da rua, não.

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