Mito ou ameaça?

Seria a desindustrialização brasileira um mito? Ou haveria pelo menos uma ameaça de desindustrialização? É verdade que há em todo o mundo um crescimento exponencial do setor de serviços, ampliando sua participação na estrutura das modernas economias de mercado. E também é verdade que a queda dos preços de produtos industriais, disparada pela competição global, associada ao aumento dos preços de matérias-primas e das commodities agrícolas, reduziu a participação da indústria na composição do produto interno bruto.

Mas a ameaça da desindustrialização brasileira não se refere a essa inegável perda de importância relativa da indústria, que ocorre de forma natural nas economias avançadas. O que se discute aqui é uma ameaça concreta aos níveis absolutos de produção e de emprego na indústria brasileira. Os juros são muito altos. O câmbio é muito baixo. Os impostos e os encargos trabalhistas são excessivos. A logística e a infraestrutura são deficientes. A energia é muito cara.

Levantamento exclusivo do IBGE para “O Globo” deste domingo mostra o encolhimento de 0,7% no mercado de trabalho industrial no período 2009-2011. Houve no triênio forte retração no emprego em setores de produtos manufaturados tradicionais, como couro e calçados (-8,1%), fumo (-12,2%), vestuário (-12,6%) e madeira (-28,9%).

O que se discute aqui é uma ameaça concreta aos níveis absolutos de produção e de emprego na indústria brasileira

É fato que a emergência da China como maior produtor mundial de manufaturados atingiu cadeias produtivas em todo o mundo. Mas a maior competitividade da indústria chinesa é também o resultado da melhor qualidade de suas políticas públicas. A moderação fiscal assegura juros baixos e câmbio favorável a suas exportações. O grosso dos gastos públicos são investimentos em energia, infraestrutura e logística, em vez de despesas correntes como no Brasil. E, como os mercados globais são suas alavancas de prosperidade e inclusão social, resistem à incidência de encargos sociais e trabalhistas.

O Brasil tem de um lado, à base das cadeias produtivas, uma fabulosa disponibilidade de recursos naturais. E temos, na outra extremidade, um mercado potencial de quase 200 milhões de consumidores para os produtos finais de nossa indústria. Mas uma perversa configuração de políticas públicas estimula uma invasão chinesa que ameaça de desintegração estágios importantes das cadeias produtivas industriais. O Império do Centro ameaça rachar ao meio a indústria brasileira.

Fonte: O Globo, 16/04/2012

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