Mitos da fraqueza americana

Paulo Rabello de Castro

Frank N. Newman é um patriota americano. Ancorado em vasta experiência como banqueiro, tanto nos EUA, quanto como presidente de um banco na China, Newman acaba de publicar intrigante argumento dos porquês os EUA não têm conseguido acompanhar a China no seu crescimento.

O livro, “Six Myths that Hold Back America” (dezembro, 2011), me foi dado a conhecer por um colega nova-iorquino do autor, o também financista Robert Albertson, de férias no sul da Bahia.

Robert me questionou se seria verdadeiro o argumento de Newman: faltaria só um jeitinho na política financeira-fiscal dos EUA, para o país voltar à recuperação ao estilo chinês? Seis mitos estariam emperrando a retomada da confiança e dos investimentos nos EUA.

Newman é um pós-keynesiano. Ressalta, em resumo, que os EUA não deveriam temer as supostas consequências fiscais de grandes déficits, por um tempo, e de uma dívida federal na altura dos 100% do PIB.

Lembra o pós-guerra, em 1945, quando os EUA haviam chegado a este mesmo nível de dívida federal. E arremata: déficits governamentais são instrumento indispensável à retomada do crescimento quando o nível da confiança nos mercados é insuficiente e os bancos privados relutam em emprestar às atividades produtivas.

Newman crê também que as dívidas federais, financiadas por Treasuries, são como “quase-moeda”, ou seja, uma vez emitidas, são automaticamente roladas em seus vencimentos com demanda cativa dentro do sistema financeiro de dólares americanos.

O autor considera como garantida essa demanda. Portanto, um dos seis mitos é a insistência no argumento de que gerações futuras haverão de “pagar”, isto é, amortizar parte dessa dívida.

Newman atribui uma condição autoimune ao sistema financeiro do dólar, pela sua condição de reserva mundial, sem qualquer concorrente em vista. Manter o déficit fiscal elevado, enquanto a economia estiver fraca, é correto e nada há de perigoso nisso. Em proporção do PIB, a dívida federal recuará quando o PIB real voltar a crescer mais do que o juro real que hoje se paga para sua rolagem.

Newman diz que a China aprendeu a fazer isso: o governo estimula a economia até o limite e o crescimento induzido acaba pagando as contas dos déficits públicos anteriores. Onde estaria a falha escondida no argumento tão fascinante e atraente como saída quase indolor para uma aguda crise?

Decerto, toda a prosa de Newman depende de o dólar continuar sendo eleito pelos investidores como porto seguro num mundo onde a confiança se esvai. Não parece ser o caso, pois uma parte da valorização do ouro é produto na desconfiança no sistema do dólar ou, pelo menos, insatisfação com a taxa de juros que remunera os Treasuries.

O segundo ponto falho no argumento de Newman é comparar o final da grande guerra com a atual conjuntura americana. Lá então, os EUA emergiram como donos do mundo, e a dívida das famílias americanas tinha se reduzido a quase zero. Hoje, as famílias americanas devem doze meses de renda disponível. Precisam desalavancar.

Por isso, o déficit público se soma a enormes déficits privados, exigindo um emagrecimento geral de custos para retomada da competitividade perdida. Só o tempo dirá que parcela de razão existe no argumento de Newman, de Paul Krugman e outros “deficistas” convictos.

Fonte: Brasil Econômico, 06/01/2012

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